Opinião

Epitáfio


Com milhares de pequenos estabelecimentos comerciais fechando, taxa de desemprego escalando aos dois dígitos, inflação em alta, tudo o que o governo tem em mente é taxar mais


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 20 de Novembro de 2015 às 16:45

  | Historiador


Quando planejaram e executaram os atentados de 11 de setembro de 2001, os terroristas da Al Quaeda visavam, tanto quanto as instituições dos EUA, a sua economia.

Pelo efeito do terror apostaram na crise que se imporia pela cessação dos fluxos de capital e da circulação de pessoas, levando à paralisação da maior economia do planeta.

Por isso, a resposta substantiva que os EUA deram ao 11 de setembro haveria de começar pela economia.

Por todo o país, os hotéis desencadearam a campanha “não deixe de viajar”; a imprensa estimulou os passageiros a voltarem  aos aeroportos desertos; a gasolina baixou a US$ 0,99 o galão, alavancando as viagens por terra; enfim, a sociedade norte-americana reagiu imediatamente à ameaça fazendo o que ela sabe fazer melhor: negócios.

Esta lembrança serve para chamar a atenção para o desatino que está se aprofundando no Brasil, onde a chefe do executivo, em reunião com governadores de estados, conseguiu chocar mais uma vez a sociedade, afirmando que “a CPMF é o plano que temos e não tem outro” (Dilma Roussef, 19/11/2015).

Mais do que choque, as palavras da presidente causam perplexidade, desalento e  frustração.

Com milhares de pequenos estabelecimentos comerciais fechando, grandes redes de varejo à beira da concordata, taxa de desemprego escalando aos dois dígitos, inflação em alta e, principalmente, diante de queda contínua da arrecadação, da atividade econômica e do rendimento real, tudo o que o governo tem em mente é taxar mais.

Mas taxar o quê? A inadimplência? As contas bancárias à míngua? A atividade econômica que vai se paralisando? O consumo e a produção em queda? 

Mais do que estupidamente ineficaz para salvar qualquer ajuste fiscal em qualquer parte do planeta, o “plano” (se é que se pode  chamá-lo assim) do governo é o avesso de qualquer receita razoável para salvar uma economia em crise.

Num país financeiramente quebrado pela corrupção e inépcia, porém economicamente forte pela sua força de trabalho e mercado, o único “plano” é o estímulo ao trabalho, à produção e ao investimento, e nunca a sua penalização  pelo imposto redundante e indistinto que é a CPMF, símbolo maior da fúria fiscal que tomou conta do Brasil.

É simplesmente incrível que políticos e economistas situados em altas esferas de decisão não enxerguem o erro de rumo na recuperação econômica do Brasil.

Só conseguem ver “gordura” no que ainda resta em termos de renda e bens a taxar, mas nunca, definitivamente nunca, a energia reprimida da população para produzir, trabalhar e investir, gerando riqueza, reduzindo verdadeiramente a desigualdade e induzindo o desenvolvimento integral da sociedade brasileira.

Mais uma vez, na acidentada história econômica do Brasil, pretende-se punir quem trabalha, quem produz e quem investe, graças à falta de visão de líderes que não estão à altura da situação grave na qual o País se encontra.

Presos uns a interesses corporativos e cartoriais, agarrados outros a engenharias sociais que não têm mais função num país com as complexidades do Brasil, compõem eles um mandarinato insensível às ruas, aos protestos, às carências reais e, acima de tudo, ao enorme potencial econômico de uma população disposta a enfrentar o desafio da recuperação do País.

Na sua cegueira, recusam-se esses mandarins a aceitar que a economia brasileira só poderá ser salva por quem produz e não por quem gasta. A frase infeliz da economista Dilma Roussef aos governadores do Nordeste passará à história do non sense econômico.

Já o seu significado político só pode ser outro: o do epitáfio de um governo confessadamente incompetente.