Opinião

Enfim, paz à vista na Síria?


Talvez o resultado da atual rodada de negociações seja manter um momento político favorável à ideia de uma solução negociada, em lugar de almejar conciliar de pronto todos os interesses opostos


  Por Roberto Fendt 06 de Novembro de 2015 às 10:02

  | Economista.


 

O conflito na Síria é a maior tragédia de nosso tempo. Até agora produziu mais de 250 mil mortos entre os civis, desabrigou 11 milhões de pessoa e produziu mais de um milhão e meio de refugiados, a maioria deles na Turquia e na Jordânia.

Muitos deles procuraram asilo em países europeus, mas poucos lá permanecem. “Quatro anos e meio de guerra, acreditamos, já é demais”, afirmou o secretário de Estado norte-americano John Kerry a respeito do conflito.

As dificuldades de pôr fim ao conflito mais uma vez mostram a fragilidade do sistema internacional para a manutenção da paz, centrado nas Nações Unidas. Agora, porém, o início de negociações entre os Estados Unidos, Irã, Rússia, Arábia Saudita, Turquia e mais uma dezena de outros países, parece finalmente trazer um pouco de esperança de que o conflito possa vir a ter um paradeiro.

Desde o último fim de semana os cinco países estão reunidos em Viena para compor os interesses das partes envolvidas. Irã e Arábia Saudita formam um dos polos principais para a solução da guerra civil síria. O primeiro, de maioria xiita, os apoia seus compatriotas na guerra civil; o segundo faz o mesmo com os sunitas em combate.

De fato, para o Irã a continuidade dos combates no país tornou-se proibitivamente cara. Ao mesmo tempo, para os iranianos não é aceitável que o país passe à órbita sunita da Arábia Saudita, desequilibrando, de seu ponto de vista, a a geopolítica de toda a região, aí incluído o acesso iraniano ao Líbano através de um regime amigável na Síria. 

Para a Turquia o conflito transborda pela presença expressiva de minoria curda, dos dois lados da fronteira com a Síria. De longa data os curdos reivindicam um Estado para si, o que conflita com o desejo turco de manter a integridade territorial de seu país.

Finalmente, para as grandes potências, Estados Unidos e Rússia, há o desejo presente de evitar que o conflito transborde para seus próprios países.

A questão é mais premente para a Rússia, pela proximidade da área em conflito com sua fronteira sul. Para os Estados Unidos, pelo risco crescente da formação de um Estado Islâmico no Oriente Médio, com consequências econômicas e políticas de primeira grandeza para seus interesses.

Por aí se vê a enorme dificuldade de conciliar tantos interesses, muitos dos quais antagônicos. Sem falar nos interesses internos da Síria. O principal desafio, do ponto de vista interno, será a definição de quando o presidente Bashar Assad deixará o poder.

Por razões óbvias, tanto Assad é um catalizador das forças que se opõem ao que resta de seu governo, como não pretende abandonar o poder.

Além disso, a oposição síria se opõe à presença do Irã nas negociações. Para ela, a presença iraniana nas conversações reflete a disposição dos Estados Unidos de aceitar um acerto político que torna ainda mais ambígua quanto à sorte de Assad no futuro do país.

Como se sabe, a posição oficial norte-americana é de que o presidente sírio deve deixar o poder.

O certo é que diversos fatores mantêm à mesa de negociação os cinco países mais interessados em encontrar-se uma solução. Isso se deve em grande parte à impossibilidade de solução dos interesses em conflito manu militari, como à forma enérgica como o secretário de Estado norte-americano em manter viva a negociação.

Talvez o resultado da atual rodada de negociações seja manter um momento político favorável à ideia de uma solução negociada, em lugar de almejar conciliar de pronto todos os interesses opostos. Não há qualquer garantia, no momento, de que tanto o presidente Assad como o amplo leque de grupos rebeldes a seu governo venham a juntar-se ao esforço de paz no futuro imediato.

O que faz com que dessa vez as negociações produzirão um resultado diferente de reuniões prévias com o mesmo objetivo?

Por um lado, os Estados Unidos e seus aliados, como a Arábia Saudita, embora mantendo oficialmente a posição favorável ao afastamento do presidente Assad, estão relativizando a exigência de remoção imediata de Assad. Esse fato é importante, já que tanto o Irã como a Rússia não se opõem a um eventual afastamento do presidente.

Para tornar possível um fim dos combates, meta prioritária dos países reunidos em Viena, está sendo assegurado que serão mantidas todas as instituições tão logo cesse a luta armada. Comprometem-se também a proteger os direitos de todos os cidadãos, assegurar acesso humanitário e persistir nos esforços de derrotar o Estado Islâmico.

Visto de longe, todo esse esforço parece ainda estar muito aquém do necessário. Mas ele constitui um passo importante para que se possa vislumbrar um imediato cessar fogo entre governo e oposição na Síria e um retorno à paz.