Opinião

Em marcha para o colapso?


O Brasil flerta perigosamente com o colapso. Foram requentadas velhas receitas de nacional-desenvolvimentismo, protecionismo e preconceitos ideológicos que, ao fim e ao cabo, apontam para o desastre


  Por Josef Barat 28 de Março de 2016 às 18:45

  | Economista, Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da ACSP


Países entram em colapso por diversas razões, com destaque para catástrofes naturais de grandes proporções e guerras prolongadas, civis ou externas.

Aqueles que têm um grau mais evoluído de organização da sociedade recuperam-se dos colapsos com certa rapidez. Os mais primitivos passam frequentemente do colapso para a condição caótica de estados falidos, de forma mais acelerada.

Há também países que entram em colapso por absoluta incompetência da gestão estatal, captura das instituições públicas por um partido e debilidade da sociedade civil.

Onde há o completo engessamento da liberdade, em razão da captura do Estado por ideologias e/ou partidos políticos de índole totalitária, o colapso embora lento, é inevitável.

Quando grupos têm o objetivo de se apoderar permanentemente do Estado e se servir das instituições em proveito próprio, a agonia pode ser demorada.

A tradição da América Latina é a de combinar estapafúrdias “ideologias” totalitárias, com a velha corrupção patrimonialista. O objetivo é, em última análise, manter o poder para engordar patrimônios privados pela apropriação de recursos públicos.

As etiquetas de esquerda, direita ou “meia volta volver” servem, afinal, como meras justificativas. As carências e o baixíssimo nível educacional de grande parte da população logicamente “ajudam” as organizações criminosas que se apoderam do Estado.

Mais recentemente, a marcha para o colapso tem sido acelerada também pela visão tacanha e maniqueísta das políticas econômicas, bem como a absoluta falta de pragmatismo e objetividade diante dos problemas.

A deterioração econômica tem sido frequentemente o fator que detona o colapso. Subordina-se os fundamentos da política econômica à conceitos ideológicos primitivos e em detrimento da realidade do mundo.

Isto significa, em última análise, submeter o povo ao sofrimento e carências, por parte daqueles que se dizem seus profetas e salvadores.

O Brasil flerta perigosamente com o colapso. Foram requentadas velhas receitas de nacional-desenvolvimentismo, protecionismo e preconceitos ideológicos que, ao fim e ao cabo, apontam para o desastre.

O país ficou isolado das grandes correntes do comércio mundial e teve sua competitividade reduzida pelos recorrentes gargalos nas infraestruturas e uma tributação kafkiana.

Foi reduzido o potencial de inserção na economia mundial e o que se conseguiu (surpresa!) foi desenvolver a maior e mais prolongada recessão da história do país.

Com se não bastasse, a inflação totalmente fora de controle – de mãos dadas com o desemprego – aceleram firmes em dois dígitos.

O poder de compra da população despencou vertiginosamente, as conquistas da melhor distribuição de renda retrocederam para os padrões de concentração dos anos 80 e o clima entre empresários é de absoluta incerteza e insegurança.

Completa o quadro o perigoso aumento da dívida pública (quase 2/3 do PIB) e as despesas do governo com juros e encargos.

A dislexia do governo é tal, que inicialmente projetando um superávit primário de 2,5% do PIB para este ano, acabou definindo um déficit (por enquanto) de 1,5%.

Tudo isso em nome de um grandioso projeto “de Esquerda”, mas que na verdade camuflou a apropriação de recursos públicos para a permanência no poder pela eternidade.

Ah sim, e também para engordar patrimônios privados, uma vez que, na exuberância tropical, ninguém afinal é de ferro... Marx e seus primeiros apóstolos, provavelmente tremem em suas tumbas.

Deve-se lembrar, todavia, que em razão dos tamanhos do território e da economia – bem como por possuir tanto uma sociedade civil, quanto instituições públicas relativamente fortes – o Brasil ainda tem tempo e energia para evitar o colapso.

A responsabilidade para isto é da sociedade, dos políticos por ela legitimados para representa-la, do Judiciário e das instituições públicas de Estado, forças que transcendem um governo em estado terminal.

Mas é aí que está o busílis do problema. Enquanto mais de 2/3 da sociedade está absolutamente consciente de que não quer prosseguir nessa marcha da insensatez, a falta de sintonia do Legislativo e o autismo do governo impedem a concretização de meios para detê-la.

Sejamos otimistas, porém, com a esperada isenção e autonomia do Judiciário. Pensando bem, talvez quem afinal esteja marchando celeremente para o colapso não seja o país, mas o grupo que se apoderou do poder há uma década e meia com seu projeto de nele se eternizar.