Opinião

Em excesso


A decisão de aceitar a mudança da Constituição por um destaque, a inversão do sentido do voto que atribuiu ao “não” o condão de “sim“ para alterar o texto constitucional e o surpreendente resultado da votação indicam que há mais trapaceiros do que se possa imaginar à primeira vista.


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 02 de Setembro de 2016 às 16:27

  | Historiador


A decisão pela elegibilidade de Dilma depois de afastada da Presidência da República foi uma trapaça que o Brasil não engoliu. Mas como toda grande trapaça, ela só prosperou por que envolveu diversos jogadores de peso, cada qual apostando que enganava melhor os outros. Por enquanto, a grande enganada foi a sociedade brasileira, mas é difícil dizer quem foi o grande trapaceiro.

Para entendermos o que está acontecendo é bom trazermos à baila os ganhadores e perdedores desse lance. A decisão de aceitar a mudança da Constituição por um destaque, a inversão do sentido do voto que atribuiu ao “não” o condão de “sim“ para alterar o texto constitucional e o surpreendente resultado da votação indicam que há mais trapaceiros do que se possa imaginar à primeira vista.

A cronologia dos fatos naquele 31 de agosto é clara.

A tramoia emergiu pela manhã, do suspeito primário, o petismo mambembe que usou suas linhas auxiliares e suas companheiras de viagem para encaminhamento da votação do inacreditável destaque de separação do impedimento e da cassação de direitos políticos, algo elementarmente inconstitucional.

Escandalizados com a ilegalidade da proposta, os senadores que respeitosamente levaram sua discordância à presidência da sessão viram seus argumentos constitucionais e lógicos serem descartados com um desprezo que indicava que a aposta já estava fechada, bancada por jogadores mais poderosos do que o petismo sem cartas.

Da tribuna, seguiu-se então a mais desarrazoada cantilena para defender a preservação dos direitos políticos da presidente que acabara de ser afastada do cargo, peroração arrematada com pérolas de filosofia política muar do agreste que serviram como senha para grandes trapaceiros baixarem suas cartas e decidirem a parada por 36 a 42.

Mas a visível satisfação dos grandes ganhadores da rodada e os resmungos dos jogadores fora da mesa indicam que aconteceu algo mais. Por certo, encontraram os apoiadores de Dilma uma maneira de salvar alguma coisa de sua anunciada derrota. Também, os políticos que estão na mira da Justiça pretendem ter se salvado pela via do incrível precedente que a elegibilidade da presidente afastada representa, e frise-se, aí incluída a própria Dilma que pode agora se aboletar em qualquer cargo que lhe garanta foro privilegiado.

Mas as consternações para quem deseja um Brasil melhor não pararam por aí. Naquele mesmo dia, noticiou-se que o líder do governo no Senado entregara sua função e que alguns dos principais partidos de oposição a Dilma não iriam recorrer do absurdo da segunda votação, sinal de que a trapaça era bem maior e que fora descoberta. 

Os admiradores da trapaça saudaram então o xeque-mate que fora dado em quem jogava pelo impeachment: se insistissem em obstar a aprovação da divisão da votação, corriam o risco de ver a sessão suspensa, como explicitamente foi ameaçado. E se ousassem ir ao STF contra a mesma divisão expunham-se a  ter a votação como um todo anulada.

É, quem sabe. Uns foram serelepes para a China, outras acham que se safaram da lei e do ostracismo. Mas conviria a uns e outras terem  mais cuidado. O pior inimigo do trapaceiro não é a policia, é o seu sócio. No caso, o trapaceiro que devolveu Dilma com direitos políticos ao PT, sem opção de recusa.

No estranho xadrez político brasileiro, o rei caiu mas o jogo não terminou. Quem tomou xeque foi a rainha, a peça mais poderosa do jogo, que por aqui tem barba,  não quer dividir palanque algum e do qual as raposas de um certo PMDB querem se livrar, oferecendo-lhe um belíssimo presente de grego. Por aí se pode entender a hesitação de outro PMDB em estragar a trapaça.

Mas, não importa o jogo, trapaça é trapaça e o Brasil não pode conviver com mais uma, monumental. O Brasil já tem trapaças e trapaceiros em excesso..