Opinião

Economia para todos


Por que o ensino da economia deveria permear todas as fases de estudos dos brasileiros --do pré-primário ao final da universidade


  Por Samir Keedi 22 de Outubro de 2015 às 09:00

  | Economista, professor e especialista em comércio exterior.


Qualquer pessoa um pouco mais esclarecida pode notar que um dos grandes problemas do país é a falta de conhecimentos econômicos da população.

Essa é uma matéria em geral restrita a um pequeno e seleto grupo de pessoas. Não necessariamente estudados ou cultos, que isso não é condição sine qua non. O que é uma pena, pois só pode agir adequadamente quem tem um mínimo de conhecimento sobre a matéria. E não vemos muito gente preocupada com isso.

Pode-se dizer, com certeza, que conhecimentos mais profundos poderiam mudar completamente o Brasil. Creio que o ensino da economia deveria permear todas as fases de estudos dos brasileiros --do pré-primário ao final da universidade, assim como nos cursos de pós-graduação. Chego a pensar que seria até desnecessária a existência de faculdade de economia.

Se fosse assim, a população influiria substancialmente no desempenho econômico do país. Com certeza não se jogaria tanto dinheiro fora ou não continuaria pagando dois carros e levando um.

A compra de automóvel financiado constitui um bom exemplo de desconhecimento. Com juros de 1% ao mês as pessoas imaginam estar pagando 12% ao ano, “apenas” pouco mais que a inflação. Não imaginam que, na realidade, os juros são maiores no final das contas.

É que eles são calculados sobre o montante total da dívida inicial e não sobre o saldo devedor. Enquanto a dívida vai diminuindo com as amortizações mês a mês, os juros continuam a correr como com a dívida total. Ou seja, os juros serão de 24%.

 Também é recorrente ver pessoas comprando, por exemplo, algo com preço de R$ 9,90 e dando uma nota de R$ 10,00, desprezando o troco, como se nada fosse. Ora, R$ 0,10 representa 1%, ou inflação de mais de um mês no Brasil atual de inflação de 10% ao ano.

 Outro bom exemplo pode ser visto no famoso empréstimo consignado.  Criado pelo governo para desconto nos salários, na folha de pagamento, à taxa de 2,0% ou 3% ao mês, ele engana a população crédula nessa ajuda.

Só explicaram ao pobre trabalhador, principalmente ao aposentado, que esse juro é bem mais baixo que o atual juro cobrado pelos bancos, que são altíssimos. E que se trata de um bom negócio.

O que deixaram de explicar ao pobrezinho é que esse juro de 2% ao mês representa quase 27,0% em 12 meses, bem mais alto que a inflação anual atual, e bem mais alto que os reajustes salariais.

 Assim, o olhar não deve ser para o fato de ser mais baixo que o praticado no mercado, mas que é bem mais alto que a inflação. Significa, simplesmente, que se pegar esse empréstimo, ele estará despoupando. Ninguém teve a gentileza (sic) de lhe explicar que poderia poupar esses juros, que não são menos escorchantes que os bancários normais, já que representam três vezes a inflação atual e os reajustes salariais.

 E isso contando apenas 2% e não 3%. E nem que, aplicando seu rico dinheirinho, e fazendo algum em cima, poderia dispor de mais recursos para uma compra à vista. Além disso, ainda pode obter algum desconto, que é isso que ocorre nas compras à vista, com maior poder de barganha.

Para usar um exemplo bem drástico, para ficar bem claro o que os juros representam, vamos usar uma taxa de 10%, como já tivemos no passado.

Todos precisam saber que 10% ao mês, de qualquer coisa, seja inflação, aplicação financeira, etc., não significa 120% ao ano.

 Essa taxa monta a 214,0% ao ano, já que é capitalizada. E isso é fácil de entender. Algo que tenha valor 100, com mais 10% terá passado a 110. Com mais 10% passará a 121. Com mais 10% irá a 133,10 e assim por diante. Portanto, esses 100 estarão em 133,1 após três meses, e não 130 --o que significa, economicamente, nesse pequeno exemplo: 10 + 10 + 10 = 33,1.

Se o brasileiro se preocupasse mais com economia, e o governo fizesse sua parte na educação, ele saberia o que é superávit primário. Que é a diferença entre receitas e despesas do governo, antes do pagamento de juros da sua dívida. E que este ano até os míseros 0,15% já estão sendo abandonados.

Passaria a entender, também, que o governo deve aos brasileiros cerca de R$ 3,8 trilhões. É quase impagável, visto que o PIB – produto interno bruto do país nem chega a R$ 6 trilhões.

Por tudo isso, não é preciso mais delongas para mostrar o que seria possível mudar no país se um número maior de pessoas compreendesse alguns fundamentos básicos de economia.

Pode-se dizer, correndo algum risco, que embora tudo no mundo seja importante, a economia é fundamental, e é do que vive o mundo, se aceite ou não. O homo sapiens é um homo economicus. Tudo numa sociedade gira em torno da economia. Embora se tenha muitas coisas de muita importância, a economia é básica.

Portanto, economia já, em todos os cursos e escolas e para todas as idades. Não é sem educação e sem conhecimentos econômicos que se faz um país forte capaz de se destacar no cenário mundial.






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