Opinião

E então Brasil?


A vitória do Brasil na Rio-2016 pode ser vista como uma vitória sobre si próprio, ou melhor, uma vitória sobre o que de pior o tomou


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 22 de Agosto de 2016 às 09:33

  | Historiador


O Brasil não estava preparado para fazer uma olimpíada. Ninguém sabia disso mais do que os brasileiros. Mas o Brasil fez. E venceu as Olimpíadas. 

Não  pelo inédito desempenho de nossos atletas e pela alegria contagiante da população, brindada que foi com as vitórias finais e históricas do futebol e do vôlei. 

O grande triunfo do Brasil na Rio-2016 foi fazer a única coisa que podia para ela acontecer: passar por cima da má gestão dos recursos públicos, da corrupção e da violência. 

Diga-se bem, passar por cima, por que elas continuam lá, como barreiras de pé numa pista de 110m.

A vitória do Brasil na Rio-2016 pode ser vista como uma vitória sobre si próprio, ou melhor, uma vitória sobre o que de pior o tomou. 

Não precisamos de recado de ninguém para nos lembrar de nossos fracassos e de nossas fraquezas. Vamos enfrentá-las, lembrando que o 7x1, mais do que a vitória de alguém, foi a derrota da qual jamais devemos nos esquecer, aguilhoando-nos por gerações para lembrar que desastres têm causa. 

Ou alguém tem dúvida de que o que nos aconteceu há dois anos no gramado começou nas mesas de negociatas que tomaram nosso futebol e ganharam as manchetes mundiais, tornando-o incapaz de colocar o nosso melhor em campo para fazer o melhor por nós, como acontece com muita coisa neste país?

Quem sabe, desde a tarde de sábado no Maracanã, essa história comece a mudar.

Para o Brasil, sem dúvida, ficou muita coisa de bom, porém R$ 39 bilhões depois, ficaram também um desabamento fatal, trabalhos mal feitos e falta de transparência.

Não passará despercebido que a Justiça Federal, em 12 de agosto, já com os jogos em pleno curso, tenha concedido uma liminar determinando que os governos federal e municipal se abstivessem de transferir qualquer recurso público para o comitê organizador da Olimpíada e Paralimpíada, ordem suspensa cinco dias depois, a 17, sem que isso impeça a tramitação do processo de apuração requerido pelo MPF e a eventual responsabilização e punição de irregularidades. 

Nessa disputa, é um alívio para o Brasil ter recebido preliminarmente uma medalha de ouro concedida ao Juiz Sérgio Moro, incluído pela Revista Time entre as 100 pessoas mais influentes o mundo, e que vai fazendo escola.

Isto aqui é o Brasil que faz as Olimpíadas, mas que também segue firme na sua luta contra a corrupção. 

Não foi por acaso que Justiça, Ministério Público e Polícia Federal brasileiros tenham prevalecido na imposição da lei no caso dos nadadores norte-americanos.

Prevaleceram por que se preocuparam com seu papel institucional e fizeram o que tinham que fazer, independentemente de desejos e conveniências do poder.

É um bom exemplo para enfrentarmos os males que permanecerão conosco depois de encerradas as Olimpíadas. 

O sucesso surpreendente da Rio-2016 pode ser resumido na apoteótica festa de encerramento que encantou o mundo e o fez sambar no Maracanã.

Lá, o Brasil se reencontrou com sua alegria e sua maneira de ser. Mais leve, mais confiante e mais feliz.
E então Brasil, vai fazer o quê com o bonito que fez? 


**********
As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio