Opinião

É de dar medo mesmo


O último episódio da guerra da mentira foi protagonizado pelo próprio Mark Zuckerberg, ao afirmar que o Facebook não deveria suprimir as postagens negando o Holocausto, o mais extenso e documentado genocídio da História


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 26 de Julho de 2018 às 08:45

  | Historiador


Que está cada vez mais difícil encontrar a verdade no mundo atual não há dúvida.

O último episódio da guerra da mentira foi protagonizado pelo próprio Mark Zuckerberg, o paladino da verdade nas redes sociais, que afirmou em entrevista que a sua plataforma, o Facebook, não deveria suprimir as postagens negando o Holocausto, uma vez que, segundo ele, as pessoas que assim o faziam não estavam errando intencionalmente.

A afirmação de Zuckerberg pode ser vista como um desdobramento do inquérito que foi instaurado em 2016 contra ele e mais três executivos do Facebook pela Procuradoria de Munique, na Alemanha, por agirem de forma ineficiente no bloqueio de postagens que incitam o ódio.

No entanto, a entrevista de Zuckerberg, divulgada na quarta-feira (18/07), vai bem além da questão sobre disseminação do ódio nas redes sociais, pois acolhe a mentira da negação do mais extenso e documentado genocídio da História, objeto de fundamentados estudos desenvolvidos por alguns dos mais renomados intelectuais do século XX.

Tal aberração, produto típico da informação sem conhecimento que inunda as redes sociais, seria um mero ato falho na medida em que se tratasse de uma afirmação isolada. Não foi.

Com a divulgação de sua entrevista em meio à polêmica causada pelas declarações de Trump após a cúpula de Helsinki, Zuckerberg pôde justapor um fato tido como verdadeiro, a interferência russa nas eleições norte-americanas, ao absurdo da tolerância com o mais perverso revisionismo dos nossos tempos, a negação do mal perpetrado pelo nazismo, dando-lhe assim ares de aceitabilidade.  

Na verdade, uma ilegalidade muito atual na Áustria (1947), Bélgica (1995), República Tcheca (2001), Alemanha (1985, 1992, 2002, 2005 e 2015), Grécia (2014), Hungria (2010), Israel (1986), Itália (2007), Lituânia, Luxemburgo (1997), Polônia (1998), Romênia (2002), Rússia (2014), Eslováquia (2001) e Espanha (2007).

O efeito da declaração que não foi retirada pelo seu autor é bem maior do que uma distorção da História.

Trata-se da desconstrução da História, por intermédio do que as sociedades perdem as suas referências éticas, políticas, sociais e, por fim, a sua identidade, deixando o caminho livre para o pior.

A pretensão de Zuckerberg em “fazer o certo” nos processos eleitorais no Brasil, na Índia e nas eleições de meio termo nos EUA é simplesmente de dar medo.

FOTO: Reprodução/CreativeCommons

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