Opinião

E agora?


Agora deve ser a hora de os detentores das grandes responsabilidades públicas agirem de acordo com seus compromissos e com a sua consciência, perante o Brasil


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 14 de Março de 2016 às 09:51

  | Historiador


Por diversas maneiras, as manifestações em todo o Brasil neste domingo, 13 de março, foram as mais importantes já vistas no País.

Tanto os seus números, que superaram as expectativas do governo e dos organizadores, como as palavras de ordem denotam que houve uma maciça mobilização popular.

Quem não foi perdeu um dos grandes momentos da História do Brasil. E perdeu feio quem apostou que a população brasileira estivesse desiludida ou que ela pudesse ser intimidada.

Milhões de brasileiros foram às ruas em todos os estados e no Distrito Federal dizer que querem três coisas: Dilma fora do poder; Lula preso e a continuação da Operação Lava Jato.

A despeito do poder que o governo ainda dispõe na grande imprensa para diminuir-lhe a importância, as manifestações, mais do que um fato, já são um acontecimento que não pode ser desconsiderado ou manipulado, dada a sua profundidade e complexidade.

Para reconhecê-lo há que se procurar em cada um desses pedidos da população a respectiva causa, percepção e dinâmica.

O clamor pelo afastamento de Dilma tem por causa primária a debacle econômica do País, sendo a presidente percebida pela população como uma dirigente incapaz, inábil e despreparada, cujo impedimento é um processo essencialmente político.

Os gritos de “Lula na cadeia” não se devem às acusações noticiadas que o envolvem, mas à sua recusa em se explicar e se submeter aos trâmites normais da Justiça, enfurecendo parte da opinião pública que já o via como envolvido em escândalos anteriores, o que influenciará, por certo, o andamento do processo legal movido contra ele.

Já o apoio à Operação Lava Jato, que deu o tom às manifestações, tem por causa o desvio de recursos públicos em um país de imensas carências que se acostumou a esperar quase tudo do Estado. A dinâmica neste caso é social, na medida em que a população vê no saneamento da gestão pública a principal via de superação das agruras que ela enfrenta.

É uma percepção profunda e arraigada contra a qual inadvertidamente investiram, tanto Dilma quanto Lula, ela vista como má gestora e ele como infiel depositário da confiança pública.   

É necessário também que se entenda as manifestações deste domingo, tal qual as ocorridas ao longo de 2015, como essencialmente da classe média, sistematicamente subestimada pelo governo, políticos e lideranças nacionais nesses últimos anos.

Nas manifestações de ontem, pode-se dizer que houve até um “controle de qualidade” de participação, com vaias bem direcionadas a políticos oportunistas que tentaram surfar a onda.

E se há uma coisa que até mesmo o PT percebeu é que as manifestações não foram “elitistas”.

E agora políticos? Não é mais possível condicionar alguma ação que lhes cabe aos números de manifestantes nas ruas, pois eles foram acachapantes.

E agora PT? A intimidação não deu certo, a qualificação de golpismo não cola mais e quem foi às ruas é muito mais povo do que a sua pelegada alugada e arruaceira.

E agora excelências? Quais truques ousarão ainda tirar da cartola? Propor uma cleptocracia semilegal para instituir de vez a república de ladrões? Motivar mais uns embargos indeclaráveis para não se chegar a lugar nenhum? Encenar algumas farsas imorais no palco do Planalto?

Agora deve ser a hora de os detentores das grandes responsabilidades públicas agirem de acordo com seus compromissos e com a sua consciência, perante o Brasil. 

Vamos ver se os há. Que saibam fazer a hora acontecer.     

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