Opinião

Donald Trump, herói da base republicana


Para a elite, ele é uma figura ridícula, mas disseram inúmeras vezes à base que a elite é corrupta e antiamericana


  Por Paul Krugman 03 de Agosto de 2015 às 11:08

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Em meados de julho, veio a notícia de que nosso longo pesadelo nacional havia finalmente chegado ao fim: Donald Trump, candidato à presidência, implodiria agora que havia ousado desafiar o heroísmo do senador republicano John McCain.

Mas, não é que ele ainda continua à frente da disputa da nomeação republicana! Como isso é possível?

A resposta objetiva a essa  indagação é que certas instâncias federais, empreiteiras, lobistas e mídia confundiram sua interpretação pessoal com a interpretação feita pelos eleitores reais -não é a primeira vez que isso acontece.

Para esses setores, McCain ainda é uma figura sagrada. Depois de todos esses anos de ideólogo convencional, ele continua sendo visto como McCain, o rebelde. E apesar do seu espírito belicoso, ele ainda é considerado um homem sábio quando o assunto é segurança nacional.

É figura praticamente constante nos talk shows matinais de domingo. Portanto, os setores já mencionados esperavam que todos ficassem horrorizados quando Donald Trump ridicularizou o histórico de guerra de McCain — uma coisa que se espera somente dos democratas.

Porém, a verdade é que a base republicana não está muito preocupada com esse tipo de coisa. Seja o que for que digam, os membros do partido não se deixam impressionar tanto assim pelo heroísmo militar.

Não se trata apenas do tratamento dado a John Kerry quando ele se candidatou à presidência —basta lembrar a pouca importância que os republicanos deram à notícia de que havíamos matado Osama bin Laden.

O fato é que eles não estão nem um pouco interessados em um sujeito idoso que perdeu uma eleição. É verdade que Trump se queimou um pouco com esse ataque recente a McCain, mas ele continua a representar a identidade da base republicana de um modo que os referidos setores parecem não conseguir compreender.

Trumpismo

Não é de surpreender que Rick Perlstein, do Talking Points Memo, nosso especialista mais destacado na ascensão do movimento conservador, nos tenha brindado com a melhor interpretação até agora do fenômeno Trump.

Conforme diz Perlstein, ninguém deveria se surpreender com a descoberta de que há muitos republicanos furiosos e que já não conseguem engolir nada mais: "Atenção, porque isto é importante: o conservadorismo assemelha-se àquele antigo jogo de fliperama em que você dava uma martelada na cabeça de um bichinho, ele recuava, mas aparecia de novo em outro lugar, e aí você batia de novo nele e assim por diante sem piedade", escreveu Perlstein recentemente.

"A dimensão do ódio, com base em meus 17 anos de estudo intenso de 60 anos de história da direita, continua a mesma. Tira-se a bandeira confederada, hasteia-se a bandeira do ódio aos imigrantes: a primeira atitude não resulta em nenhum tipo de tolerância paradisíaca; já a segunda não significa que o racismo dos conservadores tenha sido finalmente exposto em praça pública."

O mais importante de tudo isso é que uma parte fundamental da mitologia conservadora afirma que a maioria silenciosa compartilha desse ódio, e que somente a elite liberal, com sua correção política, impede os americanos de dizer aquilo que sabem ser a verdade. (É algo parecido com o clichê constante de Bill O'Reilly, da Fox News: quem discorda dele é de "extrema esquerda", pouco importa que a pessoa tenha ideias bem tradicionais).

Portanto, por que a base republicana não haveria de apoiar Donald Trump? Para a elite, ele é uma figura ridícula, mas disseram inúmeras vezes à base que a elite é corrupta e antiamericana. Disseram-lhe também que ela, a base, representa as posições verdadeiras de todos, exceto "daquelas pessoas". Portanto, por que seus membros não deveriam apoiar alguém que é como eles, em estilo e também em substância? 

 

TRADUÇÃO: A.G.Mendes

FOTO: Joshua Lott para o The New York Times