Opinião

Do que se trata?


Permanece aberta a questão se, neste início de século, o Ocidente, que pelo pensamento, conhecimento e instituições se tornou a civilização mais avançada do planeta, sucumbirá aos inimigos de seus valores


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 02 de Agosto de 2018 às 17:00

  | Historiador


Como cidadãos de uma das maiores democracias do mundo, nós brasileiros devemos ter nítido o fato histórico de pertencermos ao Ocidente, a civilização que se desenvolveu na Europa a partir da cristandade mediterrânica e se expandiu às Américas.

Em nosso povo essa consciência está plasmada na religiosidade e no folclore que permeiam a cultura brasileira, naturalmente sincrética e tolerante.

No entanto, as elites do País, cada vez mais distantes da população, apegam-se a uma visão de mundo dita cosmopolita que ignora os riscos à ordem internacional liderada pelo Ocidente.

Como de resto as elites dos Estados Unidos e da Europa, desacreditadas pela contradição entre sua leniência com as ameaças às respectivas sociedades e as exigências que fazem aos cidadãos dessas mesmas sociedades.

MONUMENTO DO IPIRANGA, PICHADO

Isso cansou as pessoas, aqui e lá, que agora esperam que outsiders da política resolvam, pela política, os problemas que se acumularam.

Guerra, terrorismo, imigração, corrupção, violência, degradação dos sistemas de saúde,  desemprego e competição comercial, só para citar as principais, são questões críticas nas democracias ocidentais, variando sua gravidade de país para país.

Mas essas questões não existem por si. Elas podem ser entendidas como efeitos dos desafios que o Ocidente enfrenta neste início do século XXI.

Um deles, presente desde o final da Segunda Guerra Mundial e não desaparecido para os europeus desde a implosão da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, é o conflito geopolítico com a Rússia na Europa, do qual ela desdobra ações em diferentes partes do globo, conforme se apresentam oportunidades, da Síria à Venezuela.

A ele se somam as ambições imperiais da China que, sustentadas por um voraz capitalismo de estado globalista, vão de pretensões territoriais na Ásia e no Extremo Oriente até a virtual compra de países na América Latina, onde instalou uma estação militar de observação espacial (na Argentina). Passando pela aquisição de quase tudo que estava disponível na África.

Segue-se o salafismo, o movimento islâmico que deseja levar o mundo de volta ao século VII e não pretende desistir de sua guerra cultural e terrorista contra o Ocidente.

Outro desafio é o crime transnacional que trafica drogas, pessoas, armas e os mais diversos recursos entre diferentes partes do globo, gerando agudos problemas sociais e potencializando ameaças de outras naturezas.

E temos ainda o cisma ideológico que viceja nas Américas e na Europa Ocidental, pois o colapso do comunismo como alternativa à democracia liberal e à economia de mercado não significou seu fim como radicalismo desestabilizador.

Novas versões das ideias seminais do marxismo no século XX, concebidas por Gramsci, Lukács, Korsch, Fromm, Habermas, Marcuse e Bloch, são aplicadas às realidades sociais dos países ocidentais, tanto na cultura, de Los Angeles ao Rio de Janeiro, como na economia, pela promoção de uma social democracia europeia que insiste em se sustentar às custas dos Estados Unidos até este se transformar também em uma, levando ao colapso do capitalismo, como queria  e previa o bom e velho Marx.

Desses cincos desafios, apenas as ambições globais da China seriam uma novidade nos últimos mil anos, período em que o Ocidente enfrentou ameaças externas e cismas de toda ordem.

Quanto ao crime, não exatamente uma novidade, os piratas, contrabandistas e salteadores de outrora foram sucedidos por organizações transnacionais muito mais ricas e articuladas, capazes de ameaçar estados nacionais em suas sedes de poder e territórios.

O que parece realmente novo na presente conjuntura internacional é a ampla e sistemática divulgação de ideias desestruturantes da vida social no Ocidente.

Na verdade, exclusivamente no Ocidente, pois não se encontrarão nas páginas impressas ou virtuais russas, chinesas, iranianas e árabes propostas de fronteiras abertas, legalização de drogas, liberação do aborto, erotização de crianças, dessexualização das pessoas e desenfreada aquisição de direitos.  Só nas revistas, jornais e sites ocidentais, aí bem incluído o Brasil.

O que têm essas ideias em comum?

A intenção de destruir o Estado. Ou melhor, transformar o Estado de maneira que destrua a ele próprio pela despersonalização dos indivíduos, os representantes das funções e da autoridade do Estado na visão marxista.

Lembrando sempre que o Estado é a sociedade politicamente organizada, não é difícil prognosticar o que vai acontecer quando ficar evidente que ele não pode atender a contínuas, crescentes e insustentáveis reivindicações de direitos por parte de minorias que não se identificam com nada.

De uma maneira ou de outra, pela impotência do Estado ou pelo desaparecimento do indivíduo como ser social, o pacto de convivência na comunidade desaparecerá, e com ele a sociedade que conhecemos.

Se essas ideias estão ligadas a algum propósito antiocidental é difícil afirmar. O que não pode ser esquecido são os grandes casos de antecedentes históricos de desconstrução do Estado pelas ideias.

O derrotismo e o divisionismo da sociedade francesa que levou o seu exército, então o melhor do mundo, ao desastre no campo de batalha em 1940 e à quase destruição da democracia ocidental pelo nazismo.

E o que ilustra até onde estão dispostos a ir os profissionais da revolução, protagonizado por aquele que desembarcou na Estação Finlândia em São Petersburgo, enviado pelo Estado-Maior alemão para derrotar seu próprio país e instalar o regime mais desastroso da História, o comunismo soviético.

Não podendo ser esquecido ainda que o marxismo ocidental, a reação doutrinária ao marxismo soviético, foi, desde o início, segundo José Guilherme Merquior, uma teoria de crise da cultura, repelindo os valores da moderna cultura social e condenando a modernidade capitalista.

Foi essa forma de ideologia que floresceu intensamente nos meios intelectuais do Ocidente, contribuindo para o enfraquecimento das instituições e expondo as democracias ocidentais ao assédio dos totalitarismos no século XX.

Permanece aberta a questão se, neste início de século, o Ocidente, que pelo pensamento, conhecimento e instituições se tornou a civilização mais avançada do planeta, sucumbirá aos inimigos de seus valores.

Enquanto alguns se comprazem com a guerra civil na politica norte-americana e a mídia do mainstream e os principais think tanks do Ocidente se recusam a pensar a respeito do que pode estar acontecendo, atores mundiais determinados e capazes perseguem objetivos bem estabelecidos.

De que se trata tudo isso?

De História. Se temos e continuaremos a ter uma para nossa sociedade.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

FOTOS: Will  Chaussê/Diário do Comércio e Rovena Rosa/Agência Brasil