Opinião

Dirceu, o joio e o trigo


Há duas minorias radicais, uma à esquerda e outra à direita, que não enxergam saídas para a crise pautadas pela democracia


  Por Paulo Saab 04 de Agosto de 2015 às 10:59

  | Jornalista, Bacharel em Direito, professor universitário e escritor.


Em vista da nova prisão de José Dirceu, é pertinente  recuperar uma conversa com os leitores, sobre os aproveitadores. Como já escrevi neste espaço, sempre há quem queira se beneficiar, por motivos diversos, de situações mal resolvidas que deixem espaço para ações nem sempre claras.

Tem acontecido isso no Brasil atual onde, o que se convencionou chamar de “esquerda” e “direita”, por minorias sempre radicais, buscam criar confusão na cabeça das pessoas de bem, em defesa de teses nem sempre verdadeiras.

Exemplo de manipulação da “esquerda”, por seus grupos de menor senso: em tudo proclama a existência de complôs, de golpes, de tentativas de desestabilização, de imprensa comprada e por aí afora, quando o que sem vem a público é contrário aos seus interesses.

Exemplo de manipulação da “direita”, por seus grupos mais radicais: confunde a liberdade democrática com a pregação de volta de governo militar, ou afastamento da presidente da República, pelo simples prazer de tumultuar, uma vez que existe legislação para casos de impedimento e o regime democrático não pode conviver com intervenções sejam de que ideologia forem.

Agora, querer, de um lado ou de outro, buscar nesse quadro justificativa para ações radicais sejam de esquerda ou de direita, é mero aproveitamento barato do estado até emocional que as sucessivas crises  provocam no país.

Limitando o comentário aos votos dados a cada candidato na eleição do ano passado,, é lícito supor que os 54 milhões de brasileiros que votaram em Dilma não são favoráveis à uma ditadura de esquerda nem a censura à imprensa, como prega o PT, assim como é lícito supor que os 51 milhões que votaram em Aécio não são favoráveis à intervenção militar e só querem punição nos casos de corrupção para os culpados.

Se alcançar o Planalto, que se punam, mas não sem comprovação. A prisão –novamente- de Dirceu não pode servir para aprofundar divisões.

É preciso, portanto, que haja bom senso de ambos os lados, de quem por um motivo seu  apoiou a reeleição de Dilma e quem também por razões suas, apoiou Aécio, para não criar o conflito onde este não existe e dar relevo à uma situação radical que não permeia o pensamento dos brasileiros.

Separar o joio do trigo nesta altura da vida nacional é imperativo.

A avassaladora onda de corrupção que sangra o petismo não pode servir de motivo para exacerbar ânimos distintos do desejo da maioria, de um governo democrático, num país em paz.

Assim como também o surgimento aqui e acolá de vozes mais estridentes pregando a volta dos militares não pode ser entendida como vontade da nação nem conspiração em andamento formulada pelas elites, terceiro turno, ou bobagens semelhantes.

Somente com ponderação, bom senso, mas com firmeza, pode-se buscar restabelecer uma espécie de unidade entre os brasileiros, em torno de ideais comuns de desenvolvimento. A falta de bom senso de setores radicais petistas que, inclusive, criaram essa separação, essa reconfiguração ideológica anacrônica de direita e esquerda, é tão lamentável quanto o aproveitamento da mesma divisão para se lançar a aventuras que fujam à legalidade, à liberdade, à vida em paz de um país sem ânimo belicoso. Ao menos até aqui.

Cada setor deve isolar seus radicais para estes não contaminarem com seus discursos e práticas ultrapassados, fora da realidade brasileira, e para que as pessoas de bem de boa-fé, inclusive no meio político, onde as deve haver, possam trabalhar, Para que as instituições funcionem normalmente.

Quem cometeu crime, deve ser julgado,se culpado, condenado e preso. Seja quem for.