Opinião

Dia de indignação


As armas do Brasil estão de um lado só, nas mãos das Forças Armadas. Serão elas a garantia última do cumprimento da Lei e da Ordem


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 17 de Março de 2016 às 16:21

  | Historiador


Em certa ocasião, antes de ser admoestado por não ter contido minha indignação diante de uma situação de trabalho, ouvi de um chefe bem mais experiente um conselho inesquecível: jamais perca a sua capacidade de se indignar. Aprendi que por mais justa que fosse a minha indignação, deveria encontrar sempre a maneira adequada de expressá-la. 

Ontem, 16 de março, foi sem dúvida um dia de indignação no Brasil. Vi pessoas mais velhas e mais novas, em situações bem diversas, expressarem sua indignação com o anúncio da ida do ex-presidente Lula para a Casa Civil da Presidência da República, indignação que aumentou exponencialmente com a divulgação do diálogo entre ele e a presidente Dilma Roussef desnudando as intenções nada republicanas do malfadado ato.

Se as manifestações  de domingo último foram as maiores da História do Brasil, as que aconteceram ontem à noite na maioria dos estados e no Distrito Federal foram as mais espontâneas já vistas. 

Até aí nenhuma surpresa, pois elas expressaram um sentimento que, ao longo do dia, contaminou a população, em locais de trabalho, auditórios, ruas, cafés, cozinhas, táxis, casas de família, redes sociais, enfim por toda parte.

Assisti ontem, em São Paulo e em Brasília, bem como no trecho da viagem, pessoas de distintas condições sociais, idades e origens expressarem sua indignação e lutarem consigo mesmas para se conterem diante de um sentimento genuíno, justificável e irresistível que lhes tomava conta.

A mesma indignação que tomou as pessoas mais experientes e os jovens que foram às ruas e inundaram as redes sociais.

Meu testemunho começa na sessão do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP) ocorrida na tarde ontem, dia 16 de março, no centro histórico da cidade, quando o ex-governador Claudio Lembo e o jurista Ives Gandra proferiram discursos memoráveis.

Lembo, homenageado pelo IHGSP com o Colar D. Pedro I, ao discorrer sobre o papel do Imperador, homenageou a dedicação de José Bonifácio e de outros brasileiros, a qual permitiu ao Brasil emergir da maior crise de sua História como nação independente, unida e incólume no seu patrimônio territorial e nacional.

Mas o que poderia ser uma elegante aula de História, transformou-se num chamado à realidade que eletrizou a plateia, quando Lembo apontou que aquele patriotismo dos primeiros passos do Brasil só é exercido hoje pelas Forças Armadas, irrepreensíveis pela isenção, equilíbrio e eficiência com que cumprem os seus deveres previstos na Constituição, texto por sinal que alude à Pátria uma só vez, exatamente no capítulo referente às forças singulares.  

Sucedeu-o Ives Gandra que, a partir da comparação entre a situação que culminou em 1954 no suicídio de Getúlio Vargas e a atual crise nacional agravada com a nomeação de Lula para cargo de ministro, destacou a absoluta falta de escrúpulos do atual governo que afunda em meio a denúncias de corrupção e ilegalidades.

A fala candente de Ives Gandra aproximou o testemunho de uma geração que viveu a sua tragédia histórica há mais de 60 anos das impressões das gerações que vivem agora outra situação dramática na qual se quer evitar nova tragédia.

Antes de ser aplaudido de pé, Gandra deu o exemplo de como a indignação deve ser expressa: garantiu que o novo pedido de impeachment da presidente estaria baseado no repúdio ao ato iníquo que ela cometeu. 

O retorno a Brasília se deu numa mistura de preocupação e orgulho. Preocupação, obviamente com a gravidade da situação, porém naquele momento específico muito mais com a exasperação de pessoas mais jovens, as quais no frenesi de seu teclar nos smartphones, verbalizavam sua indignação e diziam que tão logo desembarcassem do avião se juntariam ao protesto que já lavrava em frente ao Planalto, preocupação que aumentou com as notícias de confrontos e com o conhecimento de que familiares e amigos já haviam deixado seus trabalhos e casas rumo ao local para engrossar a manifestação. 

Não pude deixar de sentir orgulho com o protagonismo da população de Brasília, cansada de hospedar canalhas de toda espécie na cidade que não é só sua, mas de todos os brasileiros. E senti orgulho dos nossos jovens que não titubearam em ir para a rua se exporem em sua legítima indignação. Um país que tem gente assim não pode ser uma república de bananas.

O dia 16 de março ainda não acabou. A indignação com as imagens e declarações da posse do novo ministro da Casa Civil, na prática um golpe às instituições e uma afronta à sociedade brasileira, só aumentou. Há, no entanto, que se dar a essa indignação a forma e o tom que a farão cada vez mais forte, até conseguir que o governo ilegítimo e agora ilegal que  se instituiu neste País seja deposto pela Lei.

Proteste-se indefinidamente em todos os lugares; cogitem-se as paralisações que couberem sem ameaças aos direitos da população; vista-se o verde e amarelo em todas as situações, academias, trabalho, lazer, etc.; organizem-se e assinem-se tantas petições e ações públicas que forem necessárias, enfim não nos dobremos ao inaceitável.    

Indignemo-nos, genuinamente, veementemente, profundamente. Temos razão para tal.  Mas tenhamos sempre em mente que o Brasil dispõe hoje de todos os instrumentos para superar essa crise sem recorrer a instrumentos do passado. Demonstra isso a suspensão liminar da posse de Lula, em atendimento à ação popular que pede a declaração do respectivo ato nulo administrativo.  

Em 15 de novembro de 1889, tropas do Exército sob o comando do Marechal Deodoro da Fonseca, com dezesseis canhões Krupp em linha de batalha com infantaria e cavalaria se posicionaram em frente à Secretaria da Guerra, depois Ministério da Guerra, no atual prédio do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro. 

O presidente do Conselho de Ministros do Império, o Visconde de Ouro Preto, instou que o Ajudante-Geral do Exército, General Floriano Peixoto assaltasse os canhões, como as tropas brasileiras fizeram tantas vezes na Guerra do Paraguai. Floriano se recusou, com uma de suas respostas que passariam à História: não, não atacaria, “por que eram brasileiros, não inimigos”.

Ontem, 16 de março, não havia canhões em frente ao Planalto. Nem de um lado e nem do outro. E não haverá. As armas do Brasil estão de um lado só, nas mãos das Forças Armadas. Serão elas a garantia última do cumprimento da Lei e da Ordem, onde freme silenciosa e patriótica, ninguém duvide, a mesma indignação que os brasileiros jamais perderam a capacidade de sentir.   

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