Opinião

Deu zebra


A crônica dos mandatos presidenciais interrompidos


  Por Eymar Mascaro 01 de Fevereiro de 2016 às 09:00

  | Jornalista e comentarista político.


Você sabia que o Brasil já teve um presidente da República que ficou apenas algumas horas no cargo, equivalente a um dia de mandato?

Foi Carlos Luz, a segunda pessoa mais importante que nasceu na cidade mineira de Três Corações. A primeira foi Pelé.

Quando foi descoberto que ele tramava um golpe para impedir a posse de Juscelino Kubistcheck (eleito em 1955) foi imediatamente defenestrado e apeado do Poder.

Carlos Luz era presidente da Câmara dos Deputados quando assumiu interinamente a presidência da República, assim que Café Filho deixou o cargo por motivo de saúde.

Luz era o terceiro na linha da sucessão presidencial: como Getúlio Vargas havia renunciado ao mandato (agosto de 1954) para em seguida se matar com um tirou no próprio peito e o vice Café Filho também deixou o cargo vago, coube a ele, Carlos Luz, tomar posse na chefia do governo, cheio de pensamentos anti-democráticos e golpistas.

A troca de presidentes, efetivo e interinos, em período curto, envolveu também o vice--presidente do Senado, Nereu Ramos, que substituiu Carlos Luz e governou por três meses, tempo suficiente para dar posse a JK.

Por ter sido leal ao presidente eleito, Nereu Ramos foi ungido para o Ministério da Justiça. Nereu Ramos ajudou JK porque foi favorecido pelo comportamento do marechal Henrique Teixeira Lott, que impediu o golpe contra Juscelino, apesar de oficiais da Aeronáutica terem se amotinados em Aragarças e Jacareacanga.

Depois de empossado, Juscelino anistiou os oficiais amotinados.

O quatriênio 1950-1954 foi dos mais agitados na política brasileira: em 50, Getúlio cumpriu a promessa feita em 45 quando foi deposto pelos militares e disse que voltaria ao Poder "nos braços do povo".

Ele voltou realmente, ao derrotar dois fortes candidatos,o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN) e Cristiano Machado (PSD), que era apoiado pelo presidente que deixava o cargo, marechal Eurico Gaspar Dutra.

Os dois fins de mandato de Getúlio Vargas foram conturbados: no primeiro caso, ele foi deposto depois de se aguentar 15 anos no Poder, oito dos quais, como ditador.

Quando deu o golpe em 1930 e assumiu a presidência, após impedir a posse do presidente eleito democraticamente, Júlio Prestes, Getúlio teve o apoio dos militares. Mas, as mesmas Forças Armadas que o levaram ao Poder pela força serviram para tirá-lo do mesmo Poder 15 anos depois, também à força.

Como não tinha vice-presidente e o Congresso Nacional estava fora de órbita, sucedeu Getúlio o presidente do STF, ministro José Linhares, que permaneceu apenas três meses no Poder, tempo  suficiente para revelar sua aptidão pelo nepotismo, pois nomeou quase que a família inteirano serviço público para mamar nas saudáveis tetas da viúva. Linhares foi sucedido na presidência pelo marechal Eurico Gaspar Dutra.

Desde que asumiu o cargo, em 1951, Getúlio enfrentou uma oposição cerrada da UDN, comandada pelo jornalista Carlos Lacerda.

Sem saber o que se passava ao seu redor, Vargas foi traído e surpreendido pelo gesto impetuoso de seu principal agente de segurança, o sinistro Gregório Fortunato, um negro forte e destemido, que resolveu matar Lacerda.

O tiro desferido errou o alvo, ferindo Lacerda no calcanhar, mas matando o tenen te da Aeronáutica, Rubens Vaz. Foi o fim de Getúlio: vieram a renúncia e o tiro mortal no coração.

Outros presidentes também perderam o cargo antes do término de seus mandatos, mas nenhum permaneceu tão pouco tempo na presidência como Carlos Luz.

O primeiro presidente eleito após a queda da monarquia, marechal Deodoro da Fonseca assumiu em 1890 e renunciou um ano depois, no bojo de uma crise que levou ao Poder seu vice, o também marechal Floriano Peixoto que, aos trancos e barrancos, conseguiu concluir o mandato em 1894, mas persegundo, prendendo e fuzilando adversários.

Quem também não concluiu o mandato foi o mineiro Afonso Pena, não por renúncia e sim porque faleceu faltando 1 ano e meio para deixar o cargo. Seu mandato foi concluído em 1910 pelo vice, Nilo Peçanha.

O ato de renúncia que mais surpreendeu o País foi o de Jânio Quadros, em 1961, sete meses depois de ser empossado por Juscelino.

Seu vice, João Goulart assumiu a presidência em meio a uma crise sem precedentes até então, que levaram os militares a destituí-lo do cargo e instalar a ditadura da caserna que começou em 1964 e terminou em 1985.

No ciclo de governos militares houve também uma interrupção de mandato: a do general Costa e Silva, vítima de um acidente cerebral, que motivou sua substituição na presidência por uma junta militar.

Outra interrupção de mandato ocorreu com a cassação de Fernando Collor, permtindo que seu vice, Itamar Franco, governasse até 1994.

Nos 126 anos de regime republicano, três presidentes eleitos não conseguiram assumir o cargo por motivos diferentes: Rodrigues Alves em 1918, porque morreu vítima da gripe espanhola, antes de tomar posse para o exercício de seu segundo mandato, assumindo o vice Delfim Moreira; Júlio Prestes em 1930, vítima do golpe de Getúlio Vargas; e, finalmente, Tancredo Neves, eleito pelo sistema biônico em 1985, falecendo um dia antes da posse. Tancredo foi substituído pelo vice, José Sarney.

O vice-presidente atual, Michel Temer, espera pelo desfecho do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, que corre pauta no Congresso Nacional, à espera de votação em plenário.

  







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