Opinião

Descruzando os braços


Os braços cruzados de Trump falam pelos Estados Unidos, decididos a perseguir uma agenda global muito própria. O Brasil precisa atentar ao que pode estar se armando no cenário mundial


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 11 de Junho de 2018 às 07:25

  | Historiador


A foto liberada pelo governo alemão da conversa entre os líderes do G7 e o presidente Donald Trump diz mais do que o pretenso protagonismo de Angela Merkel.

Perante Trump não está apenas a chanceler alemã, mas a Europa, com Macron e Theresa May, todos ansiosos, à procura de um sinal dos Estados Unidos.

Poucos flagrantes de líderes mundiais, fora da enfadonha rotina das fotos protocolares de final de cúpula, expressam tanto como esse captado no dia 9 de junho, durante a reunião do G7 na cidade de Charlevoix, na província de Québec, no Canadá.

Os braços cruzados de Trump falam pelos Estados Unidos, decididos a perseguir uma agenda global muito própria, imitados por Shinzo Abe, o primeiro ministro do Japão, que não tem nenhuma intenção em contrariar o colega poderoso no momento em que a segurança do seu país depende do resultado do encontro na ilha de Sentosa, Singapura, marcado para as 09:00hs (horário local) do próximo dia 12 de junho para tratar da desnuclearização da Coréia do Norte, um tema sensibilíssimo que envolve cenários de guerra atômicos e convencionais, todos catastróficos.

O mundo não é plano. É bem redondo nas suas diferenças e distâncias, tanto políticas como culturais.

Bem como acidentado e dissonante, como ficou evidente do tweet de Trump depois da desnecessária declaração de Justin Trudeau, primeiro ministro do Canadá, ao final da cúpula do G7, através do qual o presidente norte-americano retirou o endosso dos EUA à declaração final do encontro e ainda ameaçou tarifar os veículos que “inundam o mercado americano”, uma ameaça indireta à Alemanha.

Um recado dos Estados Unidos a aliados e inimigos, às vésperas da reunião em Singapura entre Trump e Kim Jong-un. Uma preliminar do que vem por aí, a considerar a advertência do vice-presidente Mike Pence ao ditador norte-coreano para não brincar com Trump.

Está muito enganado quem pensa que a ordem pós-Segunda Guerra terminou.

É para a próxima reunião do banco federal norte-americano que se voltam as atenções do mundo econômico, na expectativa de um aumento das taxas de juros que vai repercutir globalmente, ameaçando economias vulneráveis, desde Brasil, Turquia e Indonésia, cujas moedas amargaram perdas de dois dígitos a partir de meados de fevereiro deste ano, até Grécia e Portugal na denominada periferia da zona do euro.

O FMI continua no topo da arquitetura econômica mundial, com ações decisivas sobre economias regionais e locais, como se viu no recente empréstimo à Argentina.

E os ganhos dos títulos do tesouro dos Estados Unidos estão cada vez mais atrativos.

Porém, como não poderia deixar de acontecer em um sistema de vasos comunicantes que é a economia globalizada, há riscos surgindo no horizonte por conta das turbulências em países altamente endividados.

Em matéria do Wall Street Journal , Ira Iosebashvili, Ben Eisen e Amrith Ramkumar alertam para o déficit recorde de US$ 1,7 trilhão de dívidas assumidas por governos, firmas financeiras e outras companhias que, concentradas na China, Coreia do Sul, Índia e alguns outros países, devem ser pagas ou refinanciadas.

No campo político e militar a situação não é muito diferente.

Em 2017, os Estados Unidos responderam por 35% dos gastos militares mundiais, um total de US$ 610 bilhões, uma cifra impressionante, mesmo se considerada a diminuição progressiva do orçamento militar norte-americano que em 2010 chegava aos US$ 768 bilhões.

A despesa militar dos EUA no ano passado foi de 2,7 vezes a da China e maior do que os sete próximos países da lista somados. É esse orçamento que financia a vontade política dos Estados Unidos em manter uma presença militar global.

Reunindo países tão distantes como Japão, Índia e Austrália para conter as ambições da China que assustam seus vizinhos menores. Vigiando, através da OTAN, qualquer tentação russa sobre os países bálticos.

E tentando administrar na África e Oriente Médio os prejuízos de seus grandes erros recentes – Iraque e Primavera Árabe -, erros que a atual administração na Casa Branca faz questão de criticar, para desconforto do establishment.

E, principalmente, deixando bem claro à Coreia do Norte e aos seus criptopatrocinadores que não vão permitir que ela adquira capacidade operacional de lançar mísseis balísticos que atinjam o território continental do país.

Há, portanto, no conturbado cenário mundial alguma previsibilidade, da qual o Brasil deve extrair os alertas e as lições importantes para sua prosperidade e segurança.

A principal é que o governo norte-americano está disposto a se mover sozinho, tem poder para tanto e, a despeito da estridência antitrumpista, está marcando pontos, interna e externamente.

Os Estados Unidos exibem considerável crescimento econômico; todo o mundo depende deles, em seus erros e acertos; e sua política interna reflete uma reação conservadora contra os excessos da globalização e do politicamente correto.

O Brasil fez bem em se acomodar, por enquanto, ao regime de cotas para exportação de aço, evitando as tarifas impostas pelos Estados Unidos. E fez melhor ainda em concertar sua ação diplomática com os EUA para conter o regime de Maduro na Venezuela.

Mas o Brasil precisa atentar ao que pode estar se armando no cenário mundial.

Se os temores de Wall Street se confirmarem, a onda de prosperidade norte-americana vai se interromper com a instabilidade dos chamados mercados emergentes, nos quais estamos, infelizmente, inseridos da pior forma, entre os que apresentam maiores déficits.

Já sabemos de cor e salteado como isso termina. Os grandes jogadores cobrem suas perdas e os devedores ficam mais endividados.

A sociedade brasileira tem que ver as reformas econômicas e políticas no País como uma questão de interesse nacional, para o que são necessárias duas coisas.

A primeira é cobrar dos candidatos nessas eleições uma posição clara a respeito das reformas. Além de deliberar sobre o futuro do País, tal cobrança favorecerá uma campanha civilizada e responsável, como se espera de uma democracia.

A segunda é lembrar que governo corrupto e incompetente não faz reforma alguma, só gera mais atraso e maior pobreza. Discursos retrógrados devem ser deixados onde merecem, no passado.

Para o Brasil também é hora de descruzar os braços.

FOTO: Bundesregierung/ Denzel

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