Opinião

Delações mal explicadas


É preciso fechar o cerco com objetividade, sem preciosismos jurídicos, mas com fatos, documentos, testemunhos e evidências


  Por Aristóteles Drummond 29 de Novembro de 2017 às 10:48

  | Jornalista


Nesse passar a limpo do Brasil, a inexperiência de envolvidos nesta nobre missão se faz notar em meio às apurações.

Sendo um dos delatores doleiro, responsável por remessas tipo “cabo” para as contas dos denunciados, não se entende não ter aparecido até agora uma conta beneficiada, de titularidade dos acusados. As existentes foram confessas ou informadas por autoridades estrangeiras.

E ninguém carrega milhões em malas, pois, se não for preso aqui, será certamente no aeroporto, ao desembarcar. Além disso, nenhum banco do mundo aceita depósitos em dinheiro de grande montante. Logo, se era doleiro e afirma que tanta gente recebeu um monte de dinheiro tinha de apontar o destino.

Outra falha, que nos parece primária, é não usar a Recita Federal na análise do que é declarado, do valor de imóveis, da titularidade de automóveis, colégios de filhos, condomínios, viagens etc.

São os famosos sinais externos de riqueza que funcionam no mundo inteiro para efeito de tributação. Tem gente com salário de 30 mil e que paga isso só de condomínio, luz, gás, telefone, automóvel, empregados domésticos. E vivem do quê?.

As coisas precisam ser definidas de maneira insofismável. Afinal, vivemos num país em que uma mala de dinheiro entregue em combinação gravada não é suficiente para uma apuração maior.

Muito menos um patrimônio imobiliário de certo vulto adquirido sempre com a interferência de um único amigo.

Em Portugal, é isso que aparece no processo contra o ex-primeiro-ministro socialista Sócrates, que tem um amigo que paga as suas despesas, as da ex-mulher e as da mãe, de maneira tão clara que virou motivo de anedota.  Ver cartões de crédito dos envolvidos e seus familiares é outra providência elementar.

Nos processos envolvendo o ex-presidente Lula, por exemplo, no caso do sítio de Atibaia, não se questiona que os supostos donos da propriedade não sejam da localidade (um reside no Rio) nem que nunca  tenham feito uso da mesma.

Mas qual o motivo de serem “sócios” de uma unidade de habitação de recreio, morando em cidades distantes?

Mais engraçado ainda é alguém que more em Mato Grosso do Sul invista em São Bernardo do Campo, logo no imóvel ao lado do ex-presidente e com o histórico do aluguel cheio de suspeições.

Também a Receita seria o instrumento para se examinar a vida dos filhos, suas viagens, gastos pessoais e imóveis de uso familiar.

É preciso fechar o cerco com objetividade, sem preciosismos jurídicos, mas com fatos, documentos, testemunhos e evidências. Mais do que detalhes formais, vale a convicção dos julgadores e da sociedade para aceitar as penas a serem aplicadas.

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio