Opinião

Debate fora de foco


São Paulo poderia estar debatendo a sua inserção no seleto grupo de cidades globais. Ao invés disso, debate se os garranchos, pichações e grafites primários e de gosto duvidoso são manifestações de Arte.


  Por Josef Barat 27 de Janeiro de 2017 às 15:12

  | Economista, Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da ACSP


O Oxford Dictionary define Arte como a “expressão ou aplicação da habilidade criativa e imaginação humanas – seja na forma visual, como pintura, escultura ou dança, seja na forma de música e literatura – produzindo obras que serão apreciadas principalmente pela sua beleza ou força emocional”. Conceitos de Arte ou Beleza se alteram no tempo e no espaço.

A força emocional das pinturas renascentistas italianas, das introspectivas holandesas ou a sensibilidade impressionista francesa são fenômenos de expressão de Beleza que afloraram em contextos históricos específicos.

O mesmo vale para as expressões musicais e literárias. Na relatividade de tempo e espaço, no fim das contas o que importa é a transcendência, universalidade e perenidade da Arte.

As manifestações artísticas – mesmo quando buscam temas do passado – refletem o seu tempo e o seu espaço em termos das angústias, tensões e compreensão, mas para serem perenes deixam um legado de emoção e beleza para o futuro.

Falar em Arte Urbana, portanto, não é algo que deva ser banalizado. A Arte, desde que o Homem deixou de ser um nômade coletor, é essencialmente urbana. Na forma visual produziu monumentos, afrescos e esculturas na busca de uma harmonia na estética urbana.

A Arquitetura e o Urbanismo, como expressão maior da habilidade humana nas cidades, produziram, por exemplo, as grandiosas praças e avenidas espanholas, a beleza harmônica inigualável de Paris e o Skyline insuperável de Nova York.

Grandes debates sobre o Urbanismo contemporâneo envolvem ideias e conceitos relacionados com a funcionalidade e estética das cidades.

O Brasil, sempre distante e defasado dos debates fundamentais, discute a questão urbana de forma mesquinha, provinciana e sempre ancorada no arcaísmo do nosso debate público.

São Paulo poderia estar debatendo a sua inserção no seleto grupo de cidades globais, buscando estratégias de maior presença no cenário mundial, o estímulo às chamadas atividades criativas, a melhor gestão para as mudanças na sua base econômica, a melhoria nas condições básicas de vida e de como se destacar pela busca de melhores padrões de educação.

Ao invés disso, debate se os garranchos, pichações e grafites primários e de gosto duvidoso são manifestações de Arte.

Como se essas manifestações grotescas tivessem força emocional das grandes criações ou alguma chance de transcenderem o seu tempo e espaço.

A questão dos grafites, pichações e garranchos devem ser tratadas de uma forma direta e objetiva.

Alguém autorizou que espaços públicos ou privados fossem invadidos e objeto de pichações? A violação de espaços por pequenos grupos que querem impor a sua “arte” fere os direitos de terceiros? Quem conferiu a esses grupos o direito de “embelezar” a cidade? Por que não se pode simplesmente aplicar a Lei para quem viola deliberadamente espaços públicos e privados? Quem vai pagar pelos danos à propriedade privada ou pública?

A título de um debate absolutamente estéril sobre “arte”, não se pode desvincular a questão dos garranchos, pichações e grafites de um contexto maior.

Trata-se da leniência do Poder Público com os “pancadões”, desrespeito difuso à Lei do Silêncio e depredação sistemática de esculturas em praças e jardins.

Sempre haverá os conhecidos idiotas travestidos de intelectuais que dirão que que não se pode inibir essas manifestações que consideram culturais e espontâneas. O povo de São Paulo fez uma escolha amplamente majoritária pela necessidade de uma gestão mais contemporânea para a cidade.

Cabe agora a esse povo se manifestar incisivamente se a sua escolha é pela civilização ou pela barbárie. A cidade pertence a todos e não pode ser refém de grupos e, sem essa consciência, não se avança no processo civilizatório. Aos cidadãos cabe a escolha...

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