Opinião

Debate equivocado


A pergunta correta não é se as aulas devem ou não voltar, mas sim, se as escolas públicas, municipais e estaduais estão preparadas para isso


  Por Marcel Solimeo 09 de Setembro de 2020 às 13:20

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


Fui perguntado se, tendo netos na pré-escola, no segundo ciclo, e na faculdade, era a favor ou contra a volta às aulas. Respondi de pronto que achava fundamental a volta à escola porque o prejuízo que a falta não apenas das aulas, mas da socialização e, em muitos casos, até a alimentação, acarreta para as crianças pode ser irrecuperável.

Procurei, no entanto, para complementar a resposta, imaginar o que diria, e o que faria meu pai, que foi diretor do colégio que leva seu nome na Vila Brasilândia. Provavelmente diria que a pergunta correta não era se as aulas devem ou não voltar, mas sim, se as escolas públicas, municipais e estaduais estão preparadas para isso.

Completaria, ainda, afirmando que a análise deveria ser de cada escola, pois as realidades, tanto das escolas, como dos alunos, são diferentes e, por isso, as respostas não poderiam ser gerais.

Como era muito cuidadoso e detalhista, começaria a análise pelas instalações físicas. A escola estava preparada para a volta dos alunos em termos sanitários e de segurança? Foi feito um levantamento dos professores e funcionários que não deverão retornar, bem como dos alunos?  Professores e colaboradores foram treinados para receber os alunos e orientá-los? Existe um plano para fixar o horário de entrada e saída dos alunos, que deveria ser diferente para cada turma? E quanto à alimentação, existiria estudo sobre as alternativas?

Existiria um plano de contingência para eventuais casos suspeitos e como proceder para evitar pânico? A quem recorrer nesses casos?

Quanto a parte didática, qual a orientação a adotar? Começar do zero o ano letivo, fazer aulas de reforço inicialmente, ou continuar de onde parou? Enfatizar as aulas discursivas ou carregar mais em exercícios?

Importante observar que essas decisões têm que ser de cada escola e, até, por classe, pois as condições em que cada aluno passou o período do recesso foram diferentes, o que aumentou os desníveis de conhecimentos entre eles.

Seguramente meu pai, com seus conhecimentos e experiência, teria ainda muito mais perguntas, mas acho que o importante é o conceito de que não cabem decisões centralizadas, a serem aplicadas a todas as escolas. Cada uma deveria apresentar seu protocolo a ser aprovado pelas autoridades de ensino e sanitária, a quem competiria acompanhar e apoiar a implementação e execução.

Com relação às escolas privadas, considero que cabe a elas estabelecer seu plano de retorno, submetendo à aprovação da autoridade, apenas na questão sanitária e da segurança, ficando a seu cargo os aspectos didáticos.

Acho que é preciso dividir responsabilidades (e poder), pois não existe solução uniforme que possa ser aplicada a realidades distintas. Considero que cabe ao poder público fixar princípios gerais para a retomada e apoiar as escolas e as comunidades para que tudo possa funcionar.

Como não tenho resposta sobre as escolas públicas, se elas estão ou não preparadas para a volta às aulas, não posso responder se os alunos devem ou não voltar.





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