Opinião

De que lado?


O novo governo tem a intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. A postura encontra alinhamento com o posicionamento do país no pós-guerra, quando, representado por Osvaldo Aranha (ao centro), foi favorável à criação do estado de Israel


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 05 de Novembro de 2018 às 08:15

  | Historiador


O anúncio da intenção do presidente eleito em transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém pode sinalizar a escolha pelo Brasil de um lado no conflito árabe-israelense. 

Na verdade, há outros lados nesse tema que se insere em uma questão bem mais ampla, que é a nossa política externa.

De um lado, temos diplomatas filopetistas que usam seus cargos e contatos para denegrir a imagem do Brasil no exterior e desrespeitar a vontade da maioria da população que apoia a Operação Lava Jato e elegeu Jair Bolsonaro.

De outro, sucedem-se declarações precipitadas e incompletas de uma campanha que ainda não virou governo e, com isso, dá munição ao farisaísmo da diplomacia companheira, trazendo em si um potencial prejuízo aos interesses comerciais, políticos e de segurança do País.

E no meio, uma política externa que precisa ser denunciada e corrigida, devido ao mal que, de fato, causou ao País.

Toda mudança de direção em uma grande democracia é um tanto histriônica. O novo dirigente eleito vocaliza a vontade da sociedade por mudanças, enquanto traça um curso de ação. Como se referiu Raymond Aron sobre o início do governo Reagan: um discurso à procura de uma política.

No caso do Brasil, não se trata, portanto, de mudar ou não a embaixada em Israel, mas sim de mudar a política externa que o PT impôs ao País, à revelia mesmo do Itamaraty.

O viés ideológico que inspirou o projeto transnacional do Foro de São Paulo, encetado já no ano seguinte à queda do Muro de Berlim, não serviu apenas à tomada do poder pelas esquerdas na América Latina.

Ele colocou o Brasil em crescente oposição à Europa e Estados Unidos; submeteu a sua economia à China prejudicando diversos setores produtivos nacionais; alinhou-o com algumas das piores ditaduras do mundo e lançou no estrangeiro teias de corrupção e descaminho de dinheiro público que ainda estão por ser devidamente apuradas.

Nesta eleição o Brasil escolheu seu presidente da República para mudar os rumos do País, também na política externa, algo que não pode ser olvidado pelos seus formuladores. Foram-se os tempos em que as decisões nessa área eram tomadas em gabinetes, à revelia da opinião pública.

Por outro lado, os eleitores e os eleitos não podem esquecer que a mudança da política externa do Brasil não pode ser feita sem a participação efetiva do Itamaraty com toda a sua tradição de profissionalismo a serviço do Estado brasileiro.

Antes da era petista, a nossa política externa jamais levou o País a aventuras. Nos difíceis momentos de luta pela manutenção da integridade territorial do Brasil, a diplomacia nacional se mostrou prudente e hábil, uma obra coroada por Rio Branco. Durante a Segunda Guerra Mundial ela foi decisiva, junto com as Forças Armadas, para que o País emergisse do conflito mais próspero, seguro e influente. Após a guerra, o seu grande compromisso foi com o desenvolvimento nacional.

Com efeito, para o bem ou para o mal, não há diferença entre a política interna e a externa. Ambas se mesclam na ação do Estado a serviço da sociedade a que serve.

Por isso, iniciada de fato a transição presidencial, está na hora de o discurso sair da campanha e vir ao encontro da responsabilidade de Estado na qual só pode haver um lado, o do Brasil.

 

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 

IMAGEM: Arquivo Nacional