Opinião

De que Brasil se orgulhar


O Brasil não merece ter Neymar em campo, como não merece ter um Moro em sua cruzada quase solitária contra a corrupção


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 22 de Junho de 2018 às 16:56

  | Historiador


O que torna o juiz federal Sérgio Moro parecido com o atacante da seleção brasileira de futebol Neymar Júnior? Não é o cabelo, por certo.

Assemelham-se porque são bem-sucedidos e assim reconhecidos pela sociedade.

Moro e Neymar são simplesmente os melhores no que fazem, graças ao seu comprometimento, dedicação e talento.

Uma coisa seríssima por aqui, a considerar o alerta de Tom Jobim sobre o perigo do sucesso no Brasil, uma verdadeira ofensa pessoal.

Um risco que, misturado à obsessão pela autodepreciação nacional, resulta na mais eficaz autossabotagem, a desconstrução do melhor.

Em nós e nos outros.

E não podia ser outro o caldo que catalisa esse veneno senão a corrupção.

A corrupção de uma CBF que traiu o esporte, uma paixão nacional e até seus próprios compromissos, não tendo outra opção a não ser se calar quando o seu melhor jogador quase foi aleijado na Copa de 2014 e agora assiste desmoralizada a perda de respeito dos juízes pela seleção do Brasil.

O choro de Neymar após a vitória do Brasil de 2x0 sobre Costa Rica foi o da amargura por ser alvo de mais da metade das faltas em jogo, contundido ao ponto de quase não poder voltar a campo para a segunda partida e ainda ser vilipendiado por comentaristas de seu país e os próprios compatriotas, de uma maneira que jamais aconteceria aos ídolos das seleções de outros países.

O Brasil não merece ter Neymar em campo.

Como não merece ter um Moro em sua cruzada quase solitária contra a corrupção no Brasil.

Ele e um punhado de desembargadores, juízes e procuradores constituem a exceção de uma justiça tão ou mais corrupta do que os outros poderes desta República, que não se peja de conceder acréscimo após acréscimo no jogo mortal que o País joga contra a corrupção, fazendo de tudo, dentro e fora de campo, para virar a partida a favor de seus patrões e apaniguados.

Porque, para quem tem um mínimo de juízo e decência neste País, está muito claro o que vai acontecer se o STF confirmar nossos maiores temores na próxima terça-feira, dia 26.

Não vai apenas libertar um criminoso condenado, mas sim abrir as portas da completa desmoralização dela mesma, justiça, enquanto instituição.

Como se ela pudesse se dar ao luxo de uma decisão que vai colocar o País no caos econômico e acirrar a polarização político-ideológica ao ponto do comprometimento da ordem, da paz social e, porventura, das eleições. Como convém aos pescadores de águas turvas, os eternos apostadores no caos.

E que não se espere protestos da grande imprensa, comentaristas, analistas e economistas quando esse desastre se consumar, agora ou mais tarde, com o STF presidido por um ministro do PT.

De início, veremos lágrimas de crocodilo. E em seguida, surpreendentes mudanças de opinião ou, pura e simplesmente, silêncios dos falantes defensores do mercado, das reformas ou do dito “centro”, que na verdade já foi sequestrado há muito tempo pela esquerda e pelo fisiologismo.

O suicídio da justiça no País vai deixar muitas vítimas, a primeira delas a esperança de que as coisas poderiam melhorar.

A sorte do Brasil é que, por razões tão distintas quanto os respectivos topetes, Moro e Neymar não desistiram de fazer o que fazem melhor do que ninguém: julgar e jogar pelo Brasil para o qual torcem os brasileiros de bem, que também não desistem dele.

É o Brasil do qual podemos nos orgulhar substantivamente, mas a respeito do qual é difícil ser otimista adjetivamente, no dizer de Roberto Campos.

P.S.: 

Um artigo atinge sua finalidade quando ele provoca reflexões sobre aspectos despercebidos em determinados acontecimentos.

Melhor ainda se os que compreenderam as correlações propostas se dispuserem a traduzi-las com suas próprias palavras.

Mas ele deve ir além da opinião pessoal.

O que parece não estar sendo percebido é o alerta contido no artigo para o preocupante aumento do ressentimento em nossa sociedade, ao final, contra nós mesmos.

Dessa maneira, dificilmente sairemos da situação em que nos encontramos.

* Atualizado em 26/06

 

IMAGENS: Lula Marques/AGPT e Lucas Figueiredo/CBF