Opinião

De novo, o que não podia e nem devia


Um ministro do STF, sem consultar seus pares, podia decidir liminarmente pela deposição do presidente do Senado?


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 08 de Dezembro de 2016 às 20:19

  | Historiador


Vamos fazer alguma coisa para impedir que o Brasil naufrague numa crise que se agrava?  Comecemos então pensando sobre o que podia, o que devia e, principalmente, o que não podia e nem devia ter acontecido no País nas últimas semanas.

Um ministro de Estado podia se demitir e anunciar publicamente que o fez por se sentir pressionado pelo presidente da República? A Câmara de Deputados podia alterar o projeto de lei anticorrupção? O Senado podia propor uma lei contra o abuso de autoridade? Um ministro do STF, sem consultar seus pares, podia decidir liminarmente pela deposição do presidente do Senado? O presidente da República podia agradar incondicionalmente parlamentares em nome da governabilidade?  

Podia. Mas não devia! Não no Brasil deste momento.

Definitivamente, o que não podia e nem devia acontecer é um ministro gravar a sua conversa com o presidente; a Câmara desfigurar completamente o projeto de lei que a ela chegou respaldado por milhões de assinaturas; o Senado propor a mais chã revanche contra o Judiciário; o STF se desmoralizar; e,  mais do que tudo, o governo dar a entender que estava envolvido nas tramóias do Congresso.  

As coisas já estavam ruins. Mas assistir o Presidente do Senado cantar de galo depois do fiasco do STF, falando em patriotismo e vitória da democracia, deixou-as bem piores.  A indignação se generalizou no País e a descrença nas instituições voltou a se alastrar.

O que está por trás dessa insensatez que vai tomando o Brasil? A quem interessa?

É evidente que interessa a dois tipos de pessoas: os que querem fugir da Justiça e os que desejam voltar ao poder. Há até quem jogue nos dois times, com ajuda dos trapaceiros de sempre e da conhecida catimba do PT.  

Com a Lavo Jato sendo contra-atacada em larga frente, das oitivas às páginas da imprensa que o PT continua a dominar, passando pela geléia geral do Congresso, Lula deixou de ser notícia para ladinamente poder opinar sobre o futuro do País.

Na  verdade, sobre o seu futuro, que é a única coisa que lhe interessa.

Mas essa é dinâmica dos velhacos, capitaneados por Lula e a banda podre da política que faz cheirar mal muitos gabinetes de poder neste País. A dinâmica que precisa predominar é outra, a do avanço das reformas fiscal, previdenciária, trabalhista e educacional. Ninguém de bom senso tem dúvida disso.

Mas, por incrível que pareça, a insensatez que andou a passos largos nas últimas semanas parece ter endereço certo e conhecido, o Palácio do Planalto.

Tudo indica que o governo federal pensa que pode conduzir as dificílimas tratativas para implementar as reformas das quais o Brasil necessita sem demonstrar compromisso indeclinável com a moral pública e fazendo o velho jogo dos conchavos e acertos.

Não se aprendeu nada com o que aconteceu ao Brasil? Que a governabilidade sustentada com corrupção termina em desastre político, econômico e social? Que reformas cruciais para o País só aconteceram realmente quando foram propostas por um governo com autoridade moral?

As reformas no horizonte imediato da Nação mexem com a vida de milhões de brasileiros que estão cansados de corrupção, impostos, ineficiência e irresponsabilidade.

São reformas que começam e terminam com dinheiro: o seu, o meu, o nosso, o de todos, que foi subtraído das mais diversas formas.

São reformas que desafiam o corporativismo, o aparelhamento e o clientelismo, todos inimigos poderosos.

Reformas prontas para serem demonizadas pela esquerda irresponsável que levou o País a esse ponto. A mesma de sempre, com o mesmo de há trinta anos, fazendo tudo que não podia e nem devia, de novo.
********
As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio