Opinião

Dar ou não uma "caixinha"?


Jânio imaginava a repercussão mundial que o caso teria se o governo russo acusasse um ex-presidente da República do Brasil de tentar subornar seu funcionário...


  Por Eymar Mascaro 28 de Outubro de 2015 às 10:19

  | Jornalista e comentarista político.


Jânio Quadros fez uma viagem à Rússia quando não era mais presidente da República. Em Moscou, ele e a mulher, dona Eloá, decidiram conhecer o mais famoso meio de transporte do país, o trem transiberiano, que corta todo o território russo.

O ex-presidente, contudo, não conseguiu comprar bilhetes-leitos para o casal viajar mais confortavelmente e concretizar melhor o sonho de fazer a longa e cansativa aventura sobre trilhos na Rússia, ainda vivendo sob o feudo dos czares comunistas.

Para não perder a oportunidade -pois estava às vésperas de retornar ao Brasil- Jânio e a mulher embarcaram ocupando duas simples poltronas, sem conforto algum.

A viagem, no início, encantava o casal, mas chegou o momento em que Jânio sucumbiu ao cansaço e à falta de sono envolto no interminável chacoalhar do trem. Irrisível como era, o ex-presidente ficou inquieto e irriquieto.

Jânio decidiu conversar com o chefe do trem tentando conseguir um outro meio de acomodação que permitisse aos dois algumas horas de sono e repouso do corpo doído e esgotado.

Jânio reservou algumas notas para dar uma "caixinha" ao chefe do trem, mas uma dúvida passou a atormentar sua cabeça: e se o chefe do trem o acusasse de tentativa de suborno?

Com as notas dobradas na mão, lá se foi o ex-presidente ao encontro do misterioso homem. O percurso entre sua poltrona e o vagão em que estava o chefão era curto, e a dúvida ainda dominava o ex-presidente.

Dava ou não dava a "caixinha" ao funcionário do governo russo? Jânio imaginava a repercussão mundial que o caso teria se o governo russo acusasse um ex-presidente da República do Brasil de tentar subornar seu funcionário. Seu pensamento era um só: a Rússia v ivia sob o domínio do medo que imperava no regime comunista.

O encontro dos dois foi tratável, segundo Jânio. O chefe do trem era educado e falava fluentemente o inglês. Feito o pedido ao chefe, Jânio criou coragem e entregou o dinheiro a ele.

"E ele aceitou?" -´perguntamos ao ex-presidente.

"Com as duas mãos" -respondeu Jânio.

Jânio foi o político mais exigente que o Brasil conheceu. Ele só admitia ser chamado de "presidente". Nem os amigos o tratavam de forma diferente.

Certa noite, fazendo uma conferência na Universidade Mackenzie, um dos alunos quis fazer uma pergunta a ele, mas se dirigiu a um ex-presidente da República dessa forma: "ô Jânio".

Jânio fez uma pausa e interrompeu o aluno:

"O senhor já ouviu falar em Benjamin Franklin? Pois bem: Benjamin Franklin dizia que a intimidade traz aborrecimento e filhos e eu confesso que não desejo ter aborrecimento e muito menos ter filhos com o senhor". A platéia, predominantemente de universitários, aplaudiu o ex-presidente de pé.

Jânio não escondia o medo que tinha de voar. Quando viajava para o exterior, costumava retornar ao Brasil de navio, misto ou cargueiro. Desembarcando no Porto de Santos, concedia uma entrevista à imprensa, quando um repórter perguntou a ele: por que o senhor, presidente, tem tanto medo de voar, se os aeronautas garantem que o avião é o meio de transporte mais seguro do mundo?  Ao que

Jânio respondeu:

"Se essa geringonça fosse segura, meu filho, Jesus Cristo não teria saído de Jerusalém montado num burrico".

PS: Autoritário como nenhum outro político no Brasil e exigente como ninguém, mas respeitando todas as pessoas indistintamente, o presidente Jânio Quadros estava morando com a filha Tutu num Flat na rua Haddock Lobo, nos Jardins.

Na última vez que estivemos em seu flat, encontramos o ex-prefeito e o ex-secretário particular de Jânio na presidência da República, José Aparecido. Ficamos ligeiramente deprimidos ao constatar que o poderoso Jânio Quadros estava sendo derrotado pelo fraldão.