Opinião

Covid-19: o mapa das mortes e a pobreza em SP


O isolamento horizontal, muito prolongado e intermitente, desacompanhado de outras medidas, tem pouca eficácia para o controle da pandemia


  Por Marcel Solimeo 12 de Abril de 2021 às 14:30

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


Estudo com relação à localização das mortes por covid-19 em São Paulo e às características dos atingidos com base em informações de 19,5 mil ocorrências mostrou que a primeira onda, entre março e setembro de 2020, confirmou o que se esperava e temia: as regiões mais pobres são as mais castigadas pela pandemia, com a taxa de mortalidade pelo vírus sendo três vezes maior do que nas regiões privilegiadas da cidade.

O quadro é muito mais grave. Ao traçar o perfil das vítimas da doença de acordo com a região onde elas viviam na cidade, as pesquisadoras da área de saúde pública e demografia identificaram que nos distritos em que mais de 10% da população tem renda per capita abaixo de um quarto de salário mínimo (até R$ 275), morreram 70% mais pessoas de covid-19 do que nas regiões mais ricas.

Destacam também que nas áreas onde é maior o número de moradias precárias, foi 53% maior o percentual de óbitos pela doença, e que nas habitações onde viviam mais de três pessoas por cômodo foi mais que o dobro (110%) de pessoas em comparação com regiões em que predominam domicílios menos densos.

Se considerarmos que em São Paulo temos 1.728 favelas, 1.759 cortiços e mais de quatro centenas de pensões e habitações coletivas onde predominam as habitações com grande densidade de moradores, baixa renda e precariedade de infraestrutura, pode-se supor que a mortalidade da covid-19 continue a ser muito mais elevada do que nas demais regiões.

Segundo Ana Freitas Ribeiro, coordenadora do Serviço de Epidemiologia do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas, uma das autoras do trabalho que foi publicado no periódico da Associação Epidemiológica Internacional (IEA, na sigla em inglês), é nas regiões de maior carência que estão os grupos mais expostos ao risco de contrair o coronavírus. São grupos que também são desfavorecidos pela incidência de doenças crônicas, falta de acesso à informação e à infraestrutura de saúde. A ação dos governos contra a pandemia não levou em conta esse fator, o que agravou ainda mais as disparidades na cidade.

Não se conhece, até agora, as medidas específicas que tenham sido adotadas para ao menos minimizar essa situação dramática de uma ampla parcela da população.

Talvez o grave problema apontado pelas pesquisadoras explique ao menos em parte porque a capital, e também o estado de São Paulo, apresente, segundo o SEADE, órgão estadual de estatísticas, maior letalidade do vírus que a média do Brasil, bem como a média de mortes por 100 mil habitantes, apesar de ser o estado mais rico da Federação.

No meu entender, explica também por que o isolamento horizontal, muito prolongado e intermitente, desacompanhado de outras medidas, tem pouca eficácia para o controle da pandemia, apesar de seu elevado custo econômico e social. A esperança de todos se volta para a expansão da vacinação como forma de reduzir o número de mortes e permitir uma certa normalidade nas atividades econômicas e na vida da população.

Matéria da Folha de São Paulo de 11 de abril revela que a vacinação de idosos é extremamente desigual na cidade, com diferenças significativas de percentuais de vacinação em função do IDH da região. Apesar dessa dificuldade, que deve ser superada, considero que é preciso direcionar com urgência a vacinação para os focos mais graves de contaminação.

Creio que uma saída desejável seria a de permitir às empresas importarem vacinas, de forma adicional, nunca em concorrência com o SUS, e doarem metade para ser aplicada exclusivamente nas regiões mais pobres, mais atingidas pelas mortes, independente de idade ou profissão. Assim, para cada “privilegiado” vacinado, um “pobre” também seria, com aumento do índice de vacinação e benefícios para todos.

 

IMAGEM: Agência Brasil






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