Opinião

Contos da era dourada


E quem acabou convocando um banqueiro e tirando comida do prato com a inflação fora de controle foi justamente a presidente reeleita


  Por Josef Barat 14 de Setembro de 2015 às 10:27

  | Economista, Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da ACSP


O cinema romeno tem a narrativa sutil e o roteiro bem estruturado do cinema argentino, assim como a narrativa bem humorada, mesmo em situações dramáticas, do cinema italiano. Uma boa combinação que tem rendido bons filmes. O contexto político é geralmente um pano de fundo para contar a história de pessoas comuns, que são afetadas em seu cotidiano pelas situações absurdas, mentiras e violência de um sistema político repressivo e que, na sua visão totalitária, quer impor o pensamento único.

Um deles os “Contos da Era Dourada” mostra em episódios e situações diferentes, a tragicômica relação dos dirigentes comunistas com o povo nos anos 80, a fase mais dura e repressiva do regime comunista. Ficam claras as demonstrações de nítida dissociação cognitiva do poder em relação ao que aspiram as pessoas.

Apesar de a Romênia não ter tido até 1989 qualquer tipo de organização da sociedade civil – pois o poder opressivo reprimia qualquer forma de associação fora do Partido – a partir deste ano, porém, numa virada impressionante, o povo começou a ir às ruas.

De inicio, o povo começou a se reunir em igrejas e, paradoxalmente, em grandes fábricas em Timisoara. Em sequência, reuniões ocorreram em outros centros industriais e foi a partir dai que os manifestantes partiram para as ruas.

Com certa ironia, portanto, as ruas que eram um monopólio da presença do Partido, passaram a receber manifestantes em protestos de massa que acabaram por liquidar a tenebrosa dominação do Partido e do clã Ceausescu. Quando estes se deram conta, tentando formar uma Frente de Salvação Nacional, o povo já estava nas ruas para apeá-los do poder.

Os “Contos da Era Dourada” servem para mostrar, de forma bem humorada, a dissociação do poder em relação à realidade das ruas. E quando essa dissociação já sinaliza para a ruptura, o povo, num dado momento, até poderia aceitar a solução de união nacional.

Todavia, quando tarda o reconhecimento da realidade, em razão da crença dos que estão no poder nas fantasias fraudulentas que criaram, o final é inevitavelmente o de ruptura.

Um cineasta brasileiro de talento (e sem buscar patrocínio da Petrobras) poderia muito bem narrar os nossos Contos da Era Dourada. Podemos, a exemplo do excelente filme romeno, sugerir cinco contos brasileiros.

O primeiro poderia ser chamado de o “Conto da Nova Matriz Econômica”, onde o governo imbuído de um nostálgico espirito nacional desenvolvimentista, achou que salvaria a economia dos efeitos da crise de 2008.

Partiu-se para a exacerbação do intervencionismo, a frouxidão das contas públicas e dos fundamentos macroeconômicos, e ofereceu-se o recrudescimento da inflação como uma oferenda ao altar do crescimento.

Com isso, se daria continuidade à fantasia de mais exacerbação do consumo, sem um nível compatível de investimentos. O resultado foi a recessão prolongada e a inflação elevada. O pior dos mundos para os cidadãos comuns.

O segundo conto seria o “Fingindo não Saber da Crise”, no contexto da campanha eleitoral, quando o candidato da Oposição foi acusado de querer um banqueiro como Ministro da Fazenda, que imporia um amargo ajuste fiscal e tiraria comida do prato dos brasileiros.

E quem acabou convocando um banqueiro e tirando comida do prato com a inflação fora de controle foi justamente a presidente reeleita. Quando o povo começou a demonstrar sua óbvia e esperada insatisfação nas ruas, ocupando-as e tirando-as do “monopólio” petista, foi acusado de golpismo... “de Direita”!

O terceiro conto é o “Amargando a Travessia”, a transição do desenvolvimentismo frustrado para uma política econômica de maior austeridade e com “remédios amargos”.

Travessias, em geral, são feitas com um mínimo de organização e objetivos claramente expostos ao povo. Travessias pressupõem a transposição do deserto e a chegada à Terra Prometida, sob uma liderança segura.

O que temos, no entanto, é o que o jornalista Vinicius Torres Freire chamou, em artigo recente, de “Travessia no Abismo... onde impera o reality show do terror macroeconômico, com seus improvisos de cortes de gastos fictícios e aumentos de impostos reais”. Tantas trapalhadas e indecisões tornam a governabilidade ainda mais precária.

O quarto conto é o “Tirando Coelhos da Cartola”, em que diante de graves impasses de natureza política, social e econômica, surgem do nada alguns “projetos” mirabolantes.

O país literalmente quebrado, e de forma recorrente são apresentados em vários momentos à sociedade o Trem Bala, a transposição do São Francisco, a Ferrovia Trans-Pacífico, além do Pre-sal, tão exaltado, mas comprometido pela roubalheira na Petrobras e o declínio nos preços do petróleo.

Por fim, o quinto conto é o “Desconstruindo o Grau de Investimento”. Quando foi atingido, o presidente Lula na época exaltou o feito como a inserção do Brasil no rol dos “países sérios”. Agora que o Brasil foi rebaixado, o mesmo Lula demonstra desprezo pelas agências de risco, dizendo que elas são incompetentes para determinar os riscos de um país.

O Brasil teria então deixado de ser um “país sério”? O que impressiona neste conto e o torna cômico, é que este rebaixamento já estava sendo objeto de advertências há algum tempo. O que não deteve a marcha inexorável da insensatez da nossa Era Dourada. Os improvisos dissociados da realidade não impedirão o povo de ir às ruas...