Opinião

Como será o amanhã II


Não se adotaram medidas específicas para as regiões mais carentes, embora a cada dia ficasse mais evidente que os moradores dessas áreas estavam sendo os mais sacrificados pelas restrições


  Por Marcel Solimeo 22 de Maio de 2020 às 17:25

  | Economista


O que será, será....

No começo, a estratégia que se anunciava para o combate à pandemia era uniforme, a de procurar retardar a expansão da contaminação, ou “achatar a curva”, como diziam, para dar tempo ao sistema de saúde se preparar quando a contaminação atingisse o pico. Essa parecia uma medida acertada naquele momento, enquanto se analisavam outras alternativas.

Alertou-se, contudo, que as restrições não poderiam durar muito tempo, pois provocariam a desorganização da economia, o desemprego, e afetariam de forma muito séria a vida da população, especialmente a mais carente.

Chamou-se a atenção de que nas regiões da periferia as precárias condições de moradia, saneamento e renda, inviabilizavam o isolamento e exigiam maior presença do estado e do município.

Ocorre que, aquilo que parecia uma medida de curto prazo, foi se prolongando, e até sendo endurecida, apesar dos constantes alertas sobre a economia e as consequências altamente negativas sobre os empregos, os trabalhadores por conta própria e os informais, as quais foram se agravando a cada adiamento, decidido sem transparência, criando uma incerteza e insegurança que torna mais difícil a situação à medida que os empresários não têm horizontes sobre até quando durarão as restrições, nem como será a saída do isolamento.

Não se adotaram medidas específicas para as regiões mais carentes, embora a cada dia ficasse mais evidente que os moradores dessas áreas estavam sendo os mais sacrificados pelas restrições.

O que se tem visto é que houve o agravamento da situação da saúde, com aumento do número de mortes, após o isolamento. Isso ocorreu, inclusive, em outros países, e parece que a explicação mais lógica para esse fato é a de que, como já existiam muitos contaminados assintomáticos, eles levaram os vírus para casa.

No caso particular da cidade de São Paulo, o número de infectados e de mortes vem aumentando mais rapidamente. Dados oficiais da prefeitura mostravam que a doença é mais letal em bairros periféricos, e mata dez vezes mais nas áreas de pior inclusão social.

Em 30 de abril constatou-se que, enquanto as mortes pelo vírus cresceram 45% na periferia, a taxa foi de 20% nas demais regiões. Esse fato foi confirmado pelo prefeito em entrevista em que afirmou que a letalidade da covid-19 tem sido maior nos locais onde há mais favelas. Parece que isso é um dado irrelevante para as autoridades, pois não levou a mudanças na política de isolamento.

Se nessas regiões o isolamento é impraticável, e não há condições sequer para separar os suspeitos ou contaminados dos demais moradores de habitações onde vivem muitas pessoas, qual é a lógica de se falar em aumentar as restrições nas demais áreas da cidade? Como isso contribuirá para melhorar a situação dos moradores da periferia? No que aquele absurdo rodízio de veículos poderia contribuir para essa finalidade?

Em vez de se discutir alternativas, a justificativa das autoridades é sempre de transferir a responsabilidade para a população - que não respeitou o isolamento -, insistindo em aumentar as restrições, como se o confinamento fosse um dogma sagrado de uma religião baseada na ciência.

A afirmação de que o isolamento precisa atingir 60% para ser efetivo não parece se sustentar, porque é baseada em hipóteses e não em informações suficientes e comprovadas. Além disso, aumentar o isolamento significará provocar mais estrago na economia e na vida da população mais carente.

Diz o ditado popular que a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem. Aliás, isso foi tragicamente comprovado, pela pesquisa cientifica em Manaus, que após nove mortos concluiu que a cloroquina em dose elevada pode matar. Isso pode acontecer com o isolamento.

Os cidadãos estão sendo cada dia mais atingidos em sua liberdade, em nome do combate à pandemia. Liberdade de empreender, liberdade de ir e vir, liberdade de exercer sua profissão, enfim, liberdade de viver sua vida como deseja, sujeitos a decisões de uma única autoridade, sem transparência ou qualquer direito a contestações.

Hayek já alertava que “é difícil imaginar um mundo mais intolerável e, também, mais irracional, do que aquele em que se permitisse aos mais eminentes especialistas de cada campo proceder sem entraves à realização de seus ideais.”

O argumento genérico de que as decisões são sempre baseadas na ciência e na defesa da vida não deve ser suficiente para que aceitemos passivamente o risco de enfrentar novas restrições. Devemos ao menos exigir maiores explicações do que os governos fizeram desde o início da pandemia, e por que os resultados esperados não se concretizaram.

Algumas perguntas devem ser feitas:

Quais providências foram tomadas com relação à pandemia desde o início de fevereiro, enquanto se preparava “o melhor Carnaval dos últimos anos”, com as maiores aglomerações já vistas em São Paulo?  

Com relação às favelas, o que foi feito, o que se está fazendo e o que se vai fazer para evitar que os mais pobres continuem a ser fortemente atingidos pela pandemia?

Quando existem “focos” de uma epidemia, não seria o caso de medidas locais?

Como a situação vai reverter se não houver medidas específicas para a periferia?

Até quando acreditam que se poderá manter o isolamento, se a “curva” não reverter até primeiro de junho, e como se dará a saída?      

Por que tantas pessoas podem trabalhar nas atividades essenciais, sem que isso aumente o risco de contágio, e os demais não podem trabalhar adotando as mesmas cautelas?

A dúvida maior, no entanto, é com relação ao pós-isolamento, pois ele retarda a disseminação da doença, retardando assim a “imunidade de rebanho”, pois não combate a pandemia.   

É preciso deixar que a população, que deu muitos exemplos de maturidade, solidariedade e amor ao próximo durante a crise, possa assumir sua responsabilidade, contando com a orientação e o apoio dos governantes, mas sem a sua tutela.    

É preciso que, passado o tempo necessário para os governos se prepararem, o estado devolva a liberdade aos cidadãos e deixe o mercado ir se ajustando, embora ainda precise dar sustentação às empresas e aos que não têm renda regular por algum tempo, para que possam compensar as perdas resultantes das intervenções e retomar o ritmo que vinham apresentando antes dessa crise.

O importante é que, passada a pior fase da pandemia, todos, governantes e governados se unam para que a retomada do crescimento possa ser mais rápida e consistente. Que o Espírito Santo ilumine os governantes e nos proteja.   

  

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IMAGEM: Pixabay