Opinião

Como será o amanhã?


O Brasil resolveu copiar o modelo do isolamento sem considerar as diferenças, não apenas em relação aos países que adotaram esse modelo, mas, sobretudo, dentro do próprio país


  Por Marcel Solimeo 19 de Maio de 2020 às 14:26

  | Economista


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Desde o início do ano, quando a China revelou ao mundo o que já sabia, mas escondia - a ocorrência do novo coronavírus -, diversos países registraram a presença da covid-19, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a decretar a existência de uma pandemia.

Considerando a característica do novo vírus, de grande facilidade de transmissão, a maioria dos países vem optando pelo isolamento social em diferentes graus, talvez por ser a única resposta que poderia ser dada rapidamente, ou por influência das medidas adotadas na China, de confinar toda a população da cidade de Wuhan, berço da covid-19 como passou a ser conhecido.

Não levaram em conta que o regime político na China permite que não se leve em consideração opiniões ou impactos sobre a população e que as informações não são transparentes, como prova a demora em comunicar o problema do vírus para a OMS e a revisão posterior dos dados comunicados.

Enquanto a Suécia, e a Holanda em menor grau, optaram por atribuir a cada cidadão a responsabilidade sobre como agir, deixando a população livre para se contaminar, para adquirir a “Imunidade de Rebanho”, Coréia, Taiwan e Japão preferiram investir nos testes para isolar apenas os infectados e a população de risco.

A maioria dos países, no entanto, por orientação da OMS, adotou o isolamento como panaceia universal, sem considerar as diferenças de situação de cada um deles.

Embora os resultados do isolamento não sejam conclusivos, pois o número de mortes após sua adoção cresceu de forma exponencial na Itália e na Espanha, e não se sabe se a abertura trará nova fase de contaminação, a OMS e os “especialistas” continuaram a recomendar essa estratégia, não apenas como uma das alternativas para o combate à pandemia, mas como a única amparada pela ciência.

Na verdade, a ciência a que tanto se referem se baseou no exemplo da China, que não é verificável, e em modelos matemáticos complexos, mas com dados precários e hipóteses não comprovadas. O mais destacado foi o do London Imperial College, que se tornou famoso e gerou um pânico geral pelas projeções iniciais alarmantes apresentadas.

Atualmente existem modelos tropicalizados, mas que também padecem da carência de dados confiáveis, pois a fata de testes obriga que se utilize hipóteses não comprovadas. Segundo o especialista Marcos Eanes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), para se poder fazer projeções mais próximas da realidade seriam necessários: o número de casos de assintomáticos, número de mortes, níveis de imunidade e, o mais problemático de todos, a disseminação do vírus na periferia.

Ele afirma que, nesse caso, como não existem dados, os modelos epidemiológicos têm dificuldade em lidar com isso, e que nessas áreas é impossível o isolamento.

Embora as projeções, mesmo com suas limitações, sejam úteis para os administradores da saúde, não podem ser tomadas como definitivas e inquestionáveis, ou verdades absolutas. O maior problema, no entanto, é que se vem interditando o debate de alternativas e se criando um falso dilema entre saúde e economia, com o risco de não salvar nenhuma das duas.

Quando do início da pandemia, recomendações da OMS propondo o isolamento foram aceitas como um “magister dixit” que põe fim a qualquer discussão, por se basear na ciência. Muitos países seguiram as recomendações por não vislumbrarem alternativas no curto prazo. Especialistas, imprensa, governadores e prefeitos, regra geral, aceitaram sem questionar, embora seja sempre discutível uma receita única para países distintos.

Posteriormente, em 15 de abril, o Diretor da OMS afirmou que o isolamento é uma das alternativas, mas que em regiões com altos níveis de pobreza, a ordem para ficar em casa e outras restrições podem não ser práticas, porque uma grande parcela da população vive em condições de superlotação e pouco acesso aos serviços de saúde. Indaga o Diretor da OMS, como sobreviver ao isolamento quando dependem de seu trabalho diário para comer?

Curiosamente, não houve nenhuma repercussão na imprensa e nem foram anunciadas medidas em função dessa nova visão da OMS.

Também não houve repercussão da surpresa do prefeito de Nova York, Andrew Cuomo, ao constatar que a maior parte das pessoas (84%) internadas por causa da covid-19, estava “literalmente” em casa. Se essas informações tivessem um pouco mais de divulgação, poderia contribuir para um debate mais equilibrado sobre as consequências do isolamento.

Bastiat, o grande liberal francês, dizia que era um erro tomar-se decisões apenas “com base no que se vê, ignorando aquilo que não se vê”. No caso, o que se vê, são as mortes pela covid-19, e afirmações de que o isolamento salvou tantos milhares de pessoas, sem que se apresentem comprovações dessas afirmações, mostrando os dados e as hipóteses utilizadas nesse cálculo.

O que não se vê, são as consequências do isolamento sobre a economia, e os riscos de que a recessão decorrente, que caminha para uma depressão, acarretará para a saúde e a vida da população, especialmente da mais carente.  

A Organização das Nações Unidas (ONU) adverte que o Brasil voltará ao “Mapa da Fome”, com 5,4 milhões de pessoas entrando na extrema pobreza em virtude do empobrecimento da população. Muitos estudos nacionais e internacionais mostram que o impacto da queda do PIB e da renda é dramático em termos de saúde, e provoca significativo aumento de mortes.  

Quando se discute que a recessão poderá levar a uma retração do PIB entre 4% e 10%, pode-se estimar o aumento do número de mortes resultante dessa queda, sem contar que, para as crianças e jovens de hoje, isso estará comprometendo não apenas seu presente, mas também o futuro.    

O Brasil, que entrou mais tarde no rol dos países atingidos pela covid-19, resolveu copiar o modelo do isolamento, sem considerar as diferenças, não apenas em relação aos países que adotaram esse modelo, mas, sobretudo, dentro do próprio país.

Quando o sociólogo francês Jacques Lambert escreveu na década de 50 seu notável livro “Os dois Brasis”, e se referiu ao Brasil Moderno e ao Brasil Arcaico, falava da existência de duas regiões distintas, o centro-sul mais rico, convivendo com o norte-nordeste mais pobre. Agora, no entanto, encontramos Os Dois Brasis, ou até muitos outros, não apenas em uma mesma região, mas na mesma cidade e, principalmente, em um mesmo bairro, onde convivem a classe alta ou média e a pobreza muitas vezes extrema, nas favelas ao redor.   

 

IMAGEM: Pixabay