Opinião

Como começa e por que termina


É preciso que enxerguemos mais fundo o que vem acontecendo ao País e tornemos às origens das ideias e instituições que dão forma à nossa vida social


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 25 de Abril de 2016 às 17:24

  | Historiador


Por baixo da efervescência do impeachment está acontecendo o movimento por uma grande novidade no Brasil: o governo, qualquer que seja, deve governar dentro da lei.

Não é pouca coisa, em um país onde, em nome da governabilidade, a lei se tornou mera extensão do poder, e não garantia dos cidadãos.

É somente a partir desse desiderato que se pode esperar  modificações substantivas para a sociedade brasileira.

Será por essa revolução a se consumar, e não por reformas que dependem daqueles que mais devem se corrigir, que o País poderá superar a presente crise e encetar o seu desenvolvimento. 

Para que esse movimento seja vitorioso é vital que as pessoas de meia idade no Brasil se mobilizem pelo espaço de, no mínimo, uma geração para o acompanhamento do trato da coisa pública.

Aos que duvidarem dessa capacidade da sociedade civil, cabe lembrar que foi ela, e não os servidores de carreira, os políticos profissionais, a grande imprensa, ou mesmo os intelectuais, que primeiramente reagiram ao descalabro cometido pelos governos do PT nesses últimos treze anos, algo que revelou a fraqueza surpreendente das instituições brasileiras, por mais constrangedor que seja para algumas delas reconhecê-lo. 

É preciso que enxerguemos mais fundo o que vem acontecendo ao País e tornemos às origens das ideias e instituições que dão forma à nossa vida social, acostumando-nos a uma visão mais crítica e abrangente, sem nos deixarmos intimidar pelos especialistas do interesse próprio que pululam no cenário público brasileiro.

Tomemos o que quase aconteceu à soberania nacional, em vias de ser violada pela presidente da República que não esteve longe de abdicar da institucionalidade que encarna, insurgindo-se perante uma assembleia internacional, não contra aqueles que, segundo ela, estariam usurpando seu mandato, mas, na verdade, contra a Nação que ela representa, a primeira e última instância a que deve prestar contas.

Salvou-se o País desse vexame e a presidente da acusação de mais um crime pelas manifestações de ministros do STF.

Do episódio ficou, no entanto, o sabor amargo do fim de qualquer pretensão do País a uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, cisalhada pela utilização irresponsável de uma reunião temática que atingiu gravemente o prestígio internacional do Brasil e assinalou o grande contraste entre o início e o fim da política externa dos governos do PT.   

Vejamos o que aconteceu ao Exército, neutralizado politicamente por Jobim, o eterno escudeiro de Lula. Foi chamado de “vanguarda” em um documento eivado de delirante marxismo, a Estratégia Nacional de Defesa, concebida não para orientar a Política Nacional de Defesa, mas sim para contrariá-la.

Transformado em gendarmaria pelo governo, à revelia do que prescreve a Constituição, foi seguidamente empregado em ações cujo fracasso se consumou na falácia das UPPs em favelas do Rio de Janeiro. 

Recebendo meios mínimos que estão longe de caracterizá-lo como força regular operacional moderna à altura das expressões econômica e política, bem como da dimensão e do posicionamento geopolítico do Brasil, não tem blindados atualizados e sequer fuzis modernos.

Está hoje em posição deplorável no ranking de exércitos ao redor do mundo: é o 35o  em carros de combate (tanques), o 43o em blindados de combate, o 34o em artilharia autopropulsada, o 23o em artilharia de campanha e o 21o em lançadores de foguetes, condição incompatível com a de país mais importante da América do Sul e do quadrante sul-ocidental do planeta.

Foi-se pelo ralo a enganação da Política Industrial de Defesa, hoje nas mãos do PCdoB, no Ministério da Defesa, para agora se chegar ao cúmulo de cogitar-se da criação de aditância militar em Cuba.

Com certeza para tratar da defesa: sim, a de Cuba. Por fim, sem vozes na sociedade para defende-lo, o que salvou o Exército do descrédito perante a população exasperada com tudo que pudesse parecer-lhe conivente com  o atual desgoverno foi a voz do general comandante do Comando Militar do Sul, dirigida exclusivamente a seus subordinados, mas que vasada custou-lhe o cargo.

Ao se esboçar aqui dois exemplos, nas relações exteriores e na defesa, do uso que o governo do PT faz dos assuntos de Estado, é conveniente lembrar que este somos todos nós.

Quando um considerável grupo de pessoas afins pela língua, terra, costumes ou outro grande vínculo decide pela sua autonomia em relação a uma entidade com a qual não mais se identifica, a primeira coisa que faz é se organizar politicamente, em um Estado, como o Brasil fez há cento e noventa e três anos, encarnando a soberania de todos os brasileiros, para representa-los e protege-los perante outras entidades soberanas, jamais traí-los. 

É por onde começa qualquer Estado. E também por que termina um governo. 

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