Opinião

Choque de realismo


Mesmo em ano eleitoral existe espaço para um debate sem demagogia do que realmente interessa ao Brasil


  Por Aristóteles Drummond 07 de Fevereiro de 2018 às 10:37

  | Jornalista


O Brasil vive um grande vazio de lideranças e de formadores de opinião com base na realidade econômica, política e social.

A consolidação da democracia abre caminho para uma preocupante fase de desencontro na harmonia de poderes. E isso é no campo fértil para a divisão de brasileiros de maneira radical no que toca às posições políticas e no entendimento do que é razoável de fazer pelo bem do país. Faz lembrar aquela história do ótimo ser inimigo do bom.

A reforma da previdência não é para ser considerada boa ou má, apenas é necessária e inadiável para que não venhamos a ter  problemas muito em breve.

E, em torno dela, surgem fantasias que fogem à realidade, como a de que os militares têm muitas vantagens. No passado, houve práticas que com o tempo foram corrigidas e, na verdade, nos últimos 30 anos, ocorreu um inexplicável achatamento salarial de nossos militares.

Os casos entregues à Justiça,  especialmente aqueles decorrentes das operações da Polícia Federal e  do Ministério Público contra a corrupção no setor público (incluindo políticos influentes), não devem ser alvo de posições passionais, de  manifestações da sociedade, mesmo que com ordem e nos limites da lei.

Devemos, sim, comemorar o fim da impunidade, a postura que desde muito impera nos países mais adiantados em que a lei é para todos.

No entanto, temos visto, nas redes sociais e nas ruas, manifestações voltadas mais para a vingança e o ódio do que para se fazer justiça. E aplausos quando a autoridade policial ou mesmo a Justiça exagera ao impor humilhação e  constrangimento aos que respondem pelos crimes de corrupção.

Não será assim que iremos construir um regime mais justo  e fraterno. Muitos poderiam pagar multas em troca da prisão domiciliar. Seria mais racional.

Quando a abertura democrática ocorreu, o  equívoco de não se preservar os acertos dos governos anteriores, inquestionáveis quanto à austeridade, honestidade e grandes projetos foi um erro.

O quadro foi sendo deturpado e, em nome da  governabilidade, se instalou esta história do toma lá dá cá, de se indicar  “afilhados” para a gestão pública. Atender aos políticos, que, afinal,  são eleitos pelo povo, não deve implicar em ceder a interesses  menores. 

Mesmo em ano eleitoral, como o que vivemos, existe espaço para um debate sem demagogia do que realmente interessa ao Brasil. É importante interpretarmos o que está acontecendo nos países mais adiantados do que nós.

Distribuição de renda não se faz com demagogia, mas, sim, com  trabalho, atraindo investimentos, melhorando o preparo do nosso trabalhador  Temos muita coisa em que pensar antes de votar.

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio