Opinião

China: queda da bolsa coloca em risco a economia mundial?


Em oito meses a bolsa de Shangai subiu 125%. As vendas agora fizeram com que os ganhos, relativamente à situação de outubro do ano passado, fossem de somente 95%. É pouco?


  Por Roberto Fendt 10 de Julho de 2015 às 11:45

  | Economista.


Os fatos vêm sendo bombardeados nos últimos dias na imprensa mundial: a queda da bolsa de Shangai, a mais importante do país, foi de mais de 30% em um único mês. Teme-se agora que o impacto dessa queda sobre a economia mundial supere qualquer efeito negativo de um Grexit, a saída da Grécia da zona do euro. Faz sentido o temor?

É fato que o recuo nas bolsas chinesas foi profundo e rápido. Contudo, diversos outros fatos têm sido ignorados.

Primeiro, nos oito meses anteriores a mesma bolsa de Shangai subiu 125%. As vendas agora fizeram com que os ganhos, relativamente à situação de outubro do ano passado, fossem de somente 95%. É pouco?

Segundo, é preciso atentar que também na China, como nos mercados bursáteis dos países avançados, são empregados programas de computador que deflagram vendas (e compras) automaticamente sempre que determinadas situações ocorrem. Esses programas, chamados por alguns de “robôs”, não necessitam de quaisquer ações de operadores humanos.

Em situações de grande número de vendas – e, em consequência, de queda nos preços dos papéis – os robôs ampliam a tendência de queda, já que adicionam às vendas iniciais outras, sem qualquer análise dos fundamentos da economia e do mercado.

Uma análise menos emocional do problema talvez permita um melhor entendimento da questão.

De um lado, seria de esperar-se que houvesse pelo menos uma estabilização dos preços das ações, senão sua queda, dado o novo patamar de crescimento da economia chinesa.

Os tempos de taxas de crescimento superiores a 10% ao ano fazem parte agora da história. De aqui em diante, o patamar será menor, o que impacta negativamente sobre o lucro das empresas, hoje e no futuro.

O preço de uma ação no mercado não pode se afastar muito do valor presente do fluxo de lucros da empresa, atual e futuro. Uma perspectiva de menores lucros no futuro levaria inevitavelmente a menores preços das ações nas bolsas.

Alguém dirá: ninguém percebeu isso e só agora o fenômeno foi detectado? Valho-me do velho John Maynard Keynes para dizer que a racionalidade dos investidores muitas vezes prega peças. Quando os preços das ações estavam subindo – magnificada a alta pela ação dos robôs – os investidores agiram como se houvesse limite para a alta.

Foi irracional o comportamento? Em bolsa, os fundamentos são importantes, mas não são determinantes do comportamento dos investidores. Se a ação vem subindo e se acredita que ainda subirá no futuro, o ponto é de compra, não de venda.

Quando a situação se inverte, o mesmo comportamento dos investidores sugere que é melhor vender logo, antes que o preço caia ainda mais no futuro. Parece bizarro, mas não é exclusiva dos chineses essa forma de comprar e vender ações.

A mesmíssima coisa acontece em Londres e Nova Iorque, como já nos advertia Walter Bagehot, em seu livro “Lombard Street: A Description of the Money Market”, publicado em 1873. Diga-se o, que se quiser, a natureza humana é mais imutável do que se pensa.

Se assim for, agiu corretamente o governo chinês em baixar as medidas destinadas a evitar que a queda nos preços das ações contagiasse a economia real como um todo. Essas medidas que incluíram suspensão de novos IPOs e a criação de um fundo de estabilização, entre outras, estão na direção correta.

Esse contágio poderia advir do comportamento dos consumidores. A perda de valor das ações já supera US$ 3 trilhões. Investidores fatalmente se sentem mais pobres diante do derretimento do valor de seus investimentos. A reação natural em situações como essa é reduzir o consumo e aumentar a poupança para repor o valor perdido dos ativos.

Isso é exatamente o que não poderia acontecer nesse momento, em que a economia chinesa está mais dependente da expansão de seu mercado interno. Com menos consumo se terá menos demanda, menor produção e aprofundamento da queda da taxa de crescimento do PIB.

Não é por outra razão que já há analistas de mercado apontando para a estabilização do crescimento chinês em menos 5% ao ano.

Não creio que seja o caso mais provável. Mas, de qualquer forma, todo o evento não é positivo para o Brasil.

A China é nosso principal parceiro comercial, e uma desaceleração maior de seu crescimento terá consequências ruins, tanto para os volumes exportados como para os preços de nossas commodities. O momento é de torcer para que o pior não sobrevenha.