Opinião

Caminhos novos


As eleições deste domingo, 2 de outubro, talvez de uma maneira nunca antes vista, sinalizam importantes mudanças na política e nas perspectivas da sociedade brasileira sobre seu futuro


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 02 de Outubro de 2016 às 20:56

  | Historiador


A eleição de prefeitos e vereadores no Brasil vai além da administração dos municípios. Nela, começam a se estruturar os apoios nas eleições para os mandatos executivos e legislativos, federal e estaduais, que ocorrem dois anos depois.

Ambas são grandes, e estreitamente ligadas. Não somente no sentido acima mencionado – de construção da rede de alianças municipais que sustentarão as estaduais e a nacional – mas também no contrário, com a população dizendo o que pensa a respeito dos rumos do País.

Até certo ponto, seriam as nossas “midterm elections”, que nos Estados Unidos deixam a Casa Branca de cabelo em pé.

Para qualquer democracia é bom que seja assim –a construção da base legislativa a partir da avaliação do governo no meio do mandato - ainda mais no Brasil, onde o delírio da presidência imperial se chocou com a realidade política por duas vezes nas últimas décadas, com consequência funestas.

E as eleições deste domingo, 2 de outubro, talvez de uma maneira nunca antes vista, sinalizam importantes mudanças na política e nas perspectivas da sociedade brasileira sobre seu futuro. Um resultado já aconteceu antes de as urnas serem abertas.

Nas 93 maiores cidades do País em que podia ocorrer um 2o turno, o PT só tinha candidatos competitivos em 5 delas, sem previsão de eleger prefeitos nas capitais do Nordeste.

Com ele, foi-se pelo ralo a alegação do “golpe”. Agora, é tempo de o Brasil se preocupar com o que é realmente importante.

E haja preocupação! Haverá quem diga que o governo tenha exagerado nas projeções de déficit anunciadas durante esta semana e nos seus resultados desastrosos que inevitavelmente se abaterão sobre todo o País se algo não for feito.

Os transbordamentos do econômico ao social e do nacional ao internacional deixam bem claro que não há exagero algum.

A deterioração das finanças públicas brasileiras é gravíssima. E não há saída para a economia do País sem elas serem saneadas: verdadeiramente, urgentemente e duradouramente.

O governo federal parece ter despertado de sua letargia, assumindo atitude corajosa e discurso consistente.

No fórum organizado pela revista Exame, ocorrido em São Paulo na sexta-feira (30/09), das principais autoridades públicas na área econômica, a começar pelo Presidente da República, ouviram-se declarações cruciais para a criação de um ambiente favorável ao investimento e aos negócios no Brasil.

“Este governo tem a missão de inocular no país uma vacina capaz de imunizar contra o populismo fiscal” (MICHEL TEMER, presidente da República).

“O Orçamento de 2017 já adota a PEC do teto do gasto. Orçamentariamente, a PEC já está em vigor” (HENRIQUE MEIRELLES, ministro de Fazenda).

“Pensando na retomada, as micro, pequenas e médias empresas são prioridades para nós. São elos fundamentais da cadeia produtiva” (MARIA SILVIA BASTOS MARQUES, presidente do BNDES).

“A única forma de o governo ser criterioso com o nosso dinheiro é se ele tiver um limite” (MANSUETO ALMEIDA, secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda).

Nos círculos especializados da economia já foram detectadas as melhorias que as primeiras medidas do governo ensejaram.

A inflação desacelera rapidamente, abrindo espaço para a redução dos juros básicos a curto prazo, com todo um leque de consequências altamente benéficas ao País. A taxa de câmbio se estabilizou em R$ 3,20/US$, o que associado ao (ainda) elevado investimento direto estrangeiro oferece relativa proteção contra as incertezas da economia mundial.

Se isso é sabido nos melhores círculos econômicos do País, tudo o que a população enxerga por enquanto é a deterioração geral dos seus padrões de vida e a ameaça do desemprego, sendo ela, população, que dará suporte às decisões que têm que ser tomadas em curto prazo para tirar o País do atoleiro em que se encontra.

Estamos, por conseguinte, em um impasse. Não há dúvidas sobre o que fazer, mas pairam outras sobre como e o quanto vamos fazer.

É preciso aprofundar o discurso de reformas no Brasil para que ele se torne amplamente compreensível pela população brasileira. É preciso mesmo um certo didatismo, a começar com a classe política, para colocar em termos bem diretos e claros a necessidade de o Brasil tomar rumo diferente do que trilhou nos últimos anos.

Não deu certo, começa por aí. Há que se fazer diferente, de uma vez por todas.  Do populismo político ao fiscal foi um passo, e não há garantias de que no futuro ele não seja dado de novo. O que o ajuste fiscal e o teto de gastos têm a ver com as mudanças na previdência, na educação e no trabalho? Tudo!

Um estado que extorque seus cidadãos com impostos para transferir renda aos que não produzem está fadado a frustrar todo mundo.

Uma geração que espera receber suas pensões sem que haja rendimentos da previdência em que confiou está condenada a não receber pelo que pagou.

Uma sociedade que paga por um sistema educacional incapaz de colocar mais pessoas capacitadas no mercado de trabalho está fraudando a si mesma.

Um país que tem postos de trabalho cada vez mais caros, os terá cada vez menos, com menores salários, informais ou não.

Em suma, ou temos mais pessoas trabalhando melhor, ou vamos todos, como país, para a inadimplência.

Para o que se costuma chamar produtividade não há atalho, alternativa ou paliativo.

Esse entendimento tem que começar na base da pirâmide, com informação e oportunidades. A população precisa deixar de enxergar no Estado, seja ele município, estado ou união, a grande sinecura onde se perde o interesse da coletividade, para passar a ver nele o supremo prestador de serviços que atende ao bem comum, a começar pelo emprego do dinheiro de todos.

Que o diga o Rio de Janeiro, atingido em cheio pela desgraça do pré-sal: o dinheiro gasto sem existir. E as unidades da federação e municípios que, tragados pela miragem dos royalties, criaram empregos ao ponto de não pagarem os que já pôde, até de quem trabalhou.   

Como sempre aconteceu, os caminhos do Brasil começam pelos municípios. É preciso trilhá-los, novos, a começar de ontem.

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