Opinião

Calma, não contemporização


Mais grave do que o crime em si é o fato de ele ter sido bem-sucedido, não pela morte do candidato alvo (felizmente), mas pela neutralização das ideias que este representa.


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 08 de Setembro de 2018 às 16:04

  | Historiador


 

O atentado contra um candidato a cargo eletivo é algo de suma gravidade para a vida de qualquer nação. Não é um incidente eleitoral ou uma mera agressão. É um crime.

A tentativa de destruição física de um concorrente político é um ataque às eleições, à democracia e ao Estado, que é a sociedade politicamente organizada. Não se trata de um crime que atinge uma pessoa, mas sim a milhões delas. Por isso é um crime político.

O que aconteceu em Juiz de Fora na tarde da última quinta-feira (6/9) foi um ataque ao Brasil em um dos momentos mais críticos e na eleição mais importante de sua História.  

Porém, mais grave do que o crime em si é o fato de ele ter sido bem-sucedido, não pela morte do candidato alvo (felizmente), mas pela neutralização das ideias que este representa.

Por meio de um sofisticado mecanismo que empregou ex-presidentes da República, uma ministra do STF, parte da mídia e intelectuais, a esquerda, de onde inequivocamente partiu o ato, conseguiu se livrar do ônus do crime transferindo-o para seus adversários.

E o mais incrível é o que veio em seguida.

Explorando a sua hegemonia no controle da opinião, forçou-os a contemporizar com o ataque que sofreram, em nome da pacificação de espíritos.

E está conseguindo que capitulem tacitamente, deixando de defender suas convicções, ideias e programas, justamente no momento crucial da campanha, a um mês das eleições.

Esta pode vir a ser uma das mais surpreendentes reviravoltas jamais vistas na política nacional.

E uma novidade histórica, pois no Brasil os atentados à vida de atores políticos sempre produziram resultados desfavoráveis aos setores, partidos ou facções de onde eles partiram.

Foi assim que feneceu o jacobinismo radical que inspirou o ataque a Prudente de Moraes em 1897.  A Revolução de 1930 se precipitou com o assassinato de João Pessoa, atribuído ao situacionismo.

Da mesma forma, a tentativa integralista de assassinato de Getúlio Vargas em 1938 acabou reforçando o seu prestígio e popularidade.

Anos mais tarde, seria vez do próprio Vargas assistir a roda da fortuna política se voltar contra ele quando se apurou que do seu círculo próximo partiu o famoso atentado da Rua Toneleros, em 1954.

E em 1966, o atentado a bomba do Aeroporto de Guararapes contra o candidato a presidente Costa e Silva só serviu para caracterizar o extremismo assassino da guerrilha comunista repudiado pela sociedade brasileira.

E por que não está acontecendo isso agora? Como é possível um atentado beneficiar os setores de opinião, políticos e ideológicos identificados com a sua autoria?

Graças à absoluta falta de ética da grande imprensa no País, desequilibrada em suas comparações e desarrazoada em suas análises.  

Enquanto as palavras do candidato vítima são tomadas por atos  de violência, os crimes bem reais que vitimam milhões de brasileiros se evanescem na retórica estéril e fútil do politicamente correto.

Foi assim que chegamos ao absurdo da proposição de ele ser responsável pelo crime que sofreu.      

E enquanto nenhum, absolutamente nenhum, líder de esquerda é cobrado por suas sistemáticas declarações incendiárias, os candidatos seus adversários são sistematicamente expostos, não a entrevistas, mas a verdadeiros espetáculos inquisitoriais encenados com o propósito de acuá-los.

É isso que a sociedade brasileira está assistindo, impassível e inerme.

O esvair de seu direito de se indignar com o que lhe acontece, de reagir no campo das ideias e de escolher nas urnas o que acha melhor para ela.

O momento é de calma, pela obediência à lei e confiança nas instituições. Jamais de contemporização com o mal que quer destruí-las.

FOTO: Fábio Motta/Estadão Conteúdo      



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