Opinião

Cala-te boca


Quando Franco Montoro se elegeu governador, em 1982, Mário Covas se serviu fartamente do "lixo autoritário" que tanto execrou


  Por Eymar Mascaro 16 de Setembro de 2015 às 00:00

  | Jornalista e comentarista político.


Eleito deputado federal em 1962 pelo antigo PTN, após ser derrotado na eleição para a Prefeitura de Santos, e tendo por base eleitoral a Baixada Santista, o engenheiro Mário Covas foi um dos mais eficientes líderes de bancada no Congresso Nacional. E, já na condição de líder da bancada do MDB e conduzindo um grupo minoritário de 125 deputados, contra mais de 300 da Arena -partido na "Revolução" de 1964, Covas conseguiu impor contundente derrota ao governo militar, mas teve, como revanche imediata, o fechamento do Congresso e algumas prisões de deputados.

O governo militar havia encaminhado um pedido de autorização da Câmara para processar o deputado Márcio Moreira Alves que, dias antes, fizera violento discurso contra os militares. O governo confiava na aprovação de seu pedido porque contava com maioria de votos na Câmara; mas, com um discurso inflamado e feliz, Covas foi tão convincente que virou o jogo e derrotou os militares, para surpresa até de seu partido.

Com o fechamento do Congresso e sendo caçado pela polícia e Forças Armadas, Marcito – como era tratado pelos colegas – fugiu e, durante muitos anos, se escondeu sem que ninguém soubesse onde estava. Para quem ainda não sabe, podemos informar que foi Mário Covas quem pediu ao ex-prefeito de Campinas, José Roberto Magalhães Teixeira, o Grama, que escondesse o deputado. Covas escolheu Campinas para esconder o colega por ser um lugar de fuga mais fácil, graças ao Aeroporto de Viracopos.

Sua vitória contra os militares foi o ponto de partida para projetar Covas nacionalmente e, a partir do episódio Marcito, ele passou a ser um dos críticos mais mordazes do regime militarista.

Denunciava, em todos os discursos que fazia, que o País vivia sob a égide do "lixo autoritário". Covas denunciou como nenhum outro oposicionista o fizera, no entanto, foi do tal do "lixo autoritário" legado ao País pelos "revolucionários" que ele precisou para satisfazer seu apetite de Poder.

Detalhe: Mário Covas foi preso na Base Aérea de Cumbica. Era tão viciado em fumar cigarros que chegou a ameaçar bater a cabeça contra as grades da cela, a ponto de convencer o coronel que o acompanhava a devolver seu maço de cigarro. Depois que enfartou por conta do fumo, Covas largou do vício, mas vivia constantemente com um cigarro apagado no canto boca.

O tempo passou e Covas cumpriu o ostracismo da cassação mas, quando Franco Montoro se elegeu governador, em 1982, Mário Covas se serviu fartamente do "lixo autoritário" que tanto execrou. Foi assim: naquela época, cabia aos governadores indicar os prefeitos das capitais e Montoro indicou Covas para a Prefeitura de São Paulo, usando o sistema biônico e anti-democrático do "lixão". Covas, docemente constrangido, aceitou a indicação e exerceu o mandato de prefeito sem ter recebido um único voto democrático do eleitor.

Um outro caso curioso que espelha a esperteza política no Brasil ocorreu quando Paulo Maluf era governador e decidiu construir o Aeroporto de Cumbica. Sua idéia foi imediatamente reprovada pelo PMDB, sendo líder do movimento contra Maluf o senador Franco Montoro.

Montoro foi pungente em suas críticas ao governador e sua campanha foi tão radical contra a construção do Aeroporto de Cumbica, que chegou a apoiar uma ação popular movida contra Maluf.

Um dos argumentos usados era que o local em que o aeroporto seria construído era inadequado por ser uma região dominada por excesso de neblina e reduto de pássaros que colocavam as aeronaves em perigo. Além de Montoro, havia também a oposição à construção da obra em Cumbica daqueles que preferiam gastar o dinheiro na modernização do Aeroporto de Viracopos, em Campinas.

Teimoso como é, Maluf enfrentou a oposição e, aos trancos e barrancos, ergueu Cumbica. Depois da obra pronta, o PMDB manobrou e espertalhão conseguiu batizar o novo aeroporto com o seguinte nome: "Aeroporto Internacional Governador André Franco Montoro".