Opinião

Bye bye Unasul


Hoje é possível concluir que a União das Nações Sul-Americanas, apesar dos razoáveis propósitos que alegadamente a inspiraram, jamais teve a menor chance de prosperar


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 22 de Abril de 2018 às 22:13

  | Historiador


As tentativas de sobrevida política de Lula não deixam que as notícias sejam noticiadas. Emulando radicalismos de atores variados, a pauta da grande imprensa não tem espaço para fatos, só para manipulações que desservem ao Brasil.

O último fato que não virou notícia foi a saída do Brasil da UNASUL, a União das Nações Sul-Americanas, criada em maio de 2008 para integrar as economias da região. Criação, por sinal,  proposta pelo Brasil.

Esse acontecimento vai passar à História como um dos maiores fracassos da política externa brasileira que, contrariando sua longa tradição de serviço ao Estado, dobrou-se à ideologia e à política.    

Foi mais um episódio da farsa que o PT protagonizou, não só durante o período em que empolgou o poder, mas desde a sua controvertida fundação, passando pela tumultuosa atuação no cenário político brasileiro.

Foi mais um estrago feito ao interesse nacional, por certo não tão visível quanto a depredação do patrimônio público pela corrupção que o PT patrocinou, mas seguramente tão duradouro quanto.

O Brasil desperdiçou a primeira grande oportunidade que se apresentou na região para uma integração que fortalecesse as economias locais e aumentasse o seu poder conjunto de negociação face aos demais blocos econômicos e principais economias do mundo.

Fazia sentido a criação de uma instância que compusesse os esquemas de integração sub-regionais do Mercosul e da Comunidade Andina de Nações para fazer avançar a agenda da Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), esta voltada para o objetivo final de criar um mercado comum latino-americano.

Como também era razoável criar instâncias que integrassem as visões e políticas de segurança e defesa no sentido de enfrentar as ameaças comuns, a maior delas o crime transnacional que despejava quantidades cada vez maiores de drogas, armas e dinheiro sujo nos países sul-americanos.

O que não fazia sentido algum era desfigurar essa agenda de integração pela obsessão antiamericana. E ainda menos que a UNASUL servisse de plataforma do projeto hegemônico do Foro de São Paulo.     

O chanceler do PT, sempre tão loquaz sobre colonização, foi o grande operador da recolonização do Brasil, não pelos europeus, mas por Cuba. E de quebra, nos transformamos em uma feitoria chinesa.

Nunca na história das relações internacionais aconteceu que um país tão inexpressivo e isolado como a ilha de Fidel conseguisse extrair tantas vantagens de outro muito maior, poderoso e rico, o Brasil, que chegou ao ponto de colocar sua política externa a serviço da agenda cubana para o Hemisfério.

Os fatos hoje consumados mostram a extensão do nonsense que tomou  conta da nossa política externa. Durante anos, prevaleceu o mantra de que o Plano Colômbia patrocinado pelos Estados Unidos significava o transbordamento do conflito ao nosso território.

Em vez de convergirmos na solução do conflito enfrentado pelo país vizinho, preferimos isolá-lo e até hostiliza-lo, associando-nos à Venezuela e ao Equador na crise surgida com a incursão colombiana contra o santuário das FARC em território equatoriano.

Aeronaves brasileiras foram colocadas a serviço de iniciativas de paz duvidosas, chegando ao cúmulo de levar um presidente deposto a uma embaixada brasileira para, sob inspiração de Hugo Chaves, afrontar a ordem institucional de outro país.

Essa parcialidade cada vez pior disfarçada acabou por nos roubar qualquer papel relevante no processo de paz colombiano que terminou se concretizando sem que oferecêssemos nada, só a melancolia das nossas esquerdas com a derrota da maior narcoguerrilha.

Grandes erros não ficam sem consequências, particularmente quando cometidos por países grandes.

O que transbordou não foram os refugiados do conflito colombiano agravado pela ajuda dos Estados Unidos. Quem acorre hoje ao nosso território são os refugiados do regime que apoiamos e financiamos, a Venezuela bolivariano-chavista tiranizada por Maduro.  

Custaram caro nossos erros, estamos pagando por eles e vamos pagar mais.

Quando pôde, o Brasil esnobou a OCDE. Agora, quando precisa, as simpatias não são suficientes para superar as desconfianças norte-americanas.

O saldo é um retrocesso de vinte anos nas relações internacionais na América do Sul, por culpa do Brasil que insistiu em exportar ideologia e corrupção.

O sonho petista acabou, mas a conta está aí.

Voltamos ao velho jogo da catimba argentina, chantagem paraguaia e dubiedade uruguaia, lições bem aprendidas por Bolívia, Equador e Venezuela que souberam extorquir empresas e bancos brasileiros.

Hoje é possível concluir que a UNASUL, apesar dos razoáveis propósitos que alegadamente a inspiraram, jamais teve a menor chance de prosperar.

Ela foi implodida pelos seus membros mais radicais, Venezuela, Bolívia e Equador, os quais, junto com Cuba, haviam constituído antes a ALBA (Alianza Bolivariana para los Pueblos de Nuestra America).

Cada uma vai afundar sozinha, perdida na sua irrelevância.

Apesar de todos os nossos erros, do nosso envolvimento e até da nossa cumplicidade, longe de nós, felizmente.

Bye bye UNASUL e tudo o que você significa!

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio 

FOTO: Roberto Stuckert Filho/Agência Brasil