Opinião

Brexit ou Britin, eis a questão


Por mais que a imprensa tenha se esforçado para fazê-la desaparecer, a questão da imigração esteve bem presente no referendo britânico


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 27 de Junho de 2016 às 08:14

  | Historiador


A saída do Rei Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales) da União Europeia será um dos grandes acontecimentos da segunda década do século XXI, graças ao seu potencial de mudança, equivalente ao da constituição da própria União Europeia em 1992, que marcou o final do século XX e alterou o panorama econômico e político mundial.

Poucos acontecimentos deste século, como o 11 de setembro e a crise de 2008, provocaram tantas e tão significativas reações, manifestações e análises, de governos e chancelarias até renomados think tanks e periódicos.

A revista norte-americana Foreign Affairs enfatizou o erro do Primeiro-Ministro britânico David Cameron em tentar renegociar quarenta anos de relacionamento com a União Europeia em apenas seis meses.

A inglesa The Economist vaticinou o efeito negativo da decisão do Brexit (British Exit) nos investimentos pelo mundo afora. Já o Atlantic Council, além de atribuir a decisão a um erro político de Cameron, apontou a necessidade de a União Europeia se reconectar aos seus cidadãos.

Com efeito, é exagerado dizer que o Brexit, a despeito da contaminação nacionalista e populista, represente uma ameaça à democracia, no Reino Unido ou na União Europeia.

Como também, apelar à recorrência marxista de que paire sobre a Europa o espectro da desintegração. Ou que o plebiscito demonstre as fragilidades da democracia direta. Existem muitas maneiras e fortes razões para a Europa permanecer unida e nenhuma democracia prescinde da livre manifestação da vontade  de seus cidadãos.

A votação mostrou um grupo multifacetado, com pessoas de mais idade, outras com menores níveis de renda e educação, a maioria delas dispersa no interior, favorável à saída da União Europeia, enquanto os mais educados e afluentes, concentrados nas grandes cidades, votaram pela permanência no bloco.

E por mais que a imprensa tenha se esforçado para fazê-la desaparecer, a questão da imigração esteve bem presente, sendo forçoso reconhecer que a forma pela qual ela é percebida nos segmentos melhor empregados e remunerados é bem diferente daquela dos que recebem em suas pequenas cidades e comunidades o impacto direto da chegada de imigrantes com baixa qualificação profissional e, na maioria dos casos, com valores e cultura bem diferentes dos britânicos.

A decisão pela saída da União Europeia não foi uma questão emocional, a despeito da atualidade nesta campanha do lema bem britânico dos tempos da Segunda Guerra Mundial: “keep calm and carry on” (tenha calma e siga em frente).

Foi uma questão de percepção da qual políticos, legisladores, tomadores de decisão, financistas e líderes empresariais podem colher lições úteis para lidarem com questões cruciais que envolvem dezenas de milhões de pessoas.

A primeira delas é que a economia é importante, mas não é tudo, principalmente quando ela não vai mal. A despeito dos políticos falarem em grandes temas, a maneira pela qual a maioria das pessoas percebe como essas questões vão afetá-las se dá de maneira bem prosaica, pela convivência do dia a dia, ainda que fundamentada em aspectos mais profundos de sua identidade.  

A segunda. O fato de uma população desinformada votar mal e eventualmente levar o país a um erro colossal não esconde a existência de um grande problema mal encaminhado pela elite pensante e não resolvido pela classe política. Em outros termos: em uma democracia, nada, nem informação e nem educação dos eleitores, na hora da tomada das grandes decisões, substitui a liderança política.  

A terceira. Não existe mais a possibilidade de nas modernas democracias  elites políticas e empresariais tomarem decisões fechadas em seus interesses e visões. O índice de comparecimento nessa votação no Reino Unido reiterou o aspecto da mobilização dos eleitores pelas tecnologias e mídias que lhes oferecem a possibilidade de, se não participar diretamente, pelo menos influir significativamente no processo decisório.  

A questão central da opção do Reino Unido pelo Brexit pode estar na previsão que Tony Judt, um dos mais renomados historiadores do pós-Segunda Guerra Mundial, fez sobre um dos grandes desafios da União Europeia.

Lembrando que os homens vivem não em mercados, mas sim em comunidades, e que nos últimos séculos essas comunidades se agruparam em estados, Judt asseverou que para alguém  participar de um estado tem que se sentir parte dele, que a proximidade física e territorial importa, permanecendo, portanto, o horizonte europeu de futuro em Lisboa ou em Varsóvia, não em Bruxelas, ainda mais em países com ativa participação dos cidadãos nos negócios públicos, como é o caso dos britânicos.

Esse é o grande problema da União Europeia, qualquer que fosse o resultado do referendo no Reino Unido: legitimidade aos olhos dos europeus. Sem isso, será impossível para a União Europeia fazer face aos crescentes desafios que a atualidade acrescenta a cada momento.

Em meio ao tiroteio verbal desencadeado pela opção britânica pelo Brexit, a mais excêntrica reação foi a do Ministério das Relações Exteriores alemão postada no Twitter: “Nós estamos indo para um pub irlandês para nos embebedarmos decentemente. E amanhã iremos trabalhar em prol de uma melhor Europa. Prometido!” O mundo que tem juízo torce por isso, não sem uma boa dose de ansiedade.

Afinal, tratando-se dos britânicos, em 200 anos, nas duas vezes que eles se colocaram fora de um sistema europeu, eles estavam certos.

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