Opinião

Brasil acima de tudo


Para restaurar a “sociedade da confiança” e a governabilidade é necessário que os eleitos para todos os cargos considerem encerradas as disputas eleitorais e se conscientizem de que governam para todos os brasileiros


  Por Marcel Solimeo 29 de Outubro de 2018 às 07:30

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


Com a definição dos escolhidos nas eleições deste ano para presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais, é preciso procurar superar o ambiente conflitivo e agressivo que permeou todo período eleitoral para criar condições de governabilidade que permitam recolocar o Brasil no caminho do desenvolvimento econômico e social.

Por governabilidade entende-se a realização de ações que atendam às demandas e necessidades da população, sendo, portanto, um conceito mais amplo do que simplesmente governar.

Nesse sentido, a governabilidade não depende apenas do governo em suas três esferas de poder, ou das instituições vigentes, mas é uma tarefa de toda sociedade, com seus valores, crenças e atitudes, e do grau de participação dos indivíduos e das organizações na vida nacional.

Mesmo que as normas legais que regem a vida do país sejam favoráveis à promoção do desenvolvimento, elas não serão suficientes para garantir a governabilidade e o progresso se não contarem com um grau de adesão voluntária da maioria da sociedade, que com elas se identifique, e as defenda

As instituições são mais do que as regras legais, pois incluem, também, os valores e a participação da sociedade, o que exige um alto grau de coesão social.

Infelizmente, assistiu-se no Brasil nos últimos anos, a um movimento sistemático de corrosão da convivência social e, portanto, da confiança entre os diversos grupos que compõe a sociedade, com o discurso dos “nós” e “eles” exacerbando a disputa política para além das divergências de opiniões e posições, como se houvesse uma incompatibilidade irreconciliável entre   diferentes grupos sociais, transformando o debate em uma luta entre o bem e o mal.

Naturalmente o “nós” era o grupo governante anterior que, apesar dos desvios, desmandos e desacertos que resultaram na profunda crise atual, com cerca de 13 milhões de desempregados, se arvorava em representante do bem, pois tudo que fez foi em nome do social.

Assim, “eles”, no caso os geradores de riqueza e emprego, derrubaram esse grupo do governo, para retirar direitos dos trabalhadores e beneficiar os ricos e, portanto, representavam o mal.

Com base nesse discurso demagógico contestaram o impeachment e, após a prisão de Lula, promoveram manifestações interna e externamente, prejudicando a imagem do país e a governabilidade.

Transpuseram esse discurso para a campanha eleitoral, mas, desta vez, diferentemente de ocasiões anteriores, encontraram reações igualmente fortes e agressivas, apenas trocando as posições.

Os que confrontam o grupo do PT se consideram o “bem” e eles o “mal”, numa polarização que ultrapassou a mera disputa política, atingindo relações de diversas naturezas, inclusive familiares.

Para assegurar a governabilidade será necessária a restauração de uma coesão social mínima, que permita que as instituições possam funcionar a contento.

Não se trata de criar um consenso entre posições contrárias, mas em estabelecer uma convivência de respeito e confiança entre todos, a partir de algum valor comum, que, no caso, é a aceitação do “jogo democrático”.

Caso a radicalização persista, caminharemos para o que Alain Pereyfitte, historiador francês, chamava de “sociedade da desconfiança”, “uma sociedade temerosa, “ganha-perde”, onde a vida comum é um jogo cujo resultado é nulo, ou até negativo, uma sociedade propícia à luta de classes, à inveja social, ao fechamento, à agressividade da vigilância mútua”.

Para restaurar a “sociedade da confiança” e a governabilidade é necessário que os eleitos para todos os cargos considerem encerradas as disputas eleitorais e se conscientizem de que governam para todos os brasileiros, contribuindo para estabelecer um ambiente em que os adversários não são inimigos e que as divergências fazem parte do “jogo democrático”.

De outro lado, é preciso que os perdedores aceitem os resultados das eleições como manifestação de vontade da maioria da população e procurem contribuir para o restabelecimento de um ambiente onde seja possível a convivência não conflitiva dos contrários.

Na democracia, uma oposição consistente e coerente desempenha um papel fundamental para a busca do equilíbrio na tomada de decisões.

Não basta, contudo, que os governantes e os políticos de uma forma geral procurem desarmar os espíritos e superar a agressividade que prevaleceu durante o período eleitoral se os cidadãos em geral também não procurarem esquecer as desavenças, divergências e, inclusive, ofensas que permearam as redes sociais e passem a utilizar esse poderoso instrumento para defender valores e posições de forma a contribuir para um ambiente de convivência harmoniosa da sociedade brasileira.

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