Opinião

Boas notícias à frente?


As expectativas de hoje podem não se sustentar mais adiante. De qualquer forma é reconfortante, após um tsunami de más notícias na frente econômica, vislumbrar alguma coisa positiva. A hora é de torcer por elas


  Por Roberto Fendt 03 de Julho de 2015 às 12:17

  | Economista.


Tanto o presidente como o diretor da área internacional do Banco Central deram declarações nessa semana que sinalizam duas coisas importantes: primeiro, a confiança de que a inflação venha a convergir para o centro da meta em 2016; segundo, que a atual sequência de alta na taxa de juros pode estar próxima de estar chegando ao fim.

Caso as duas percepções estejam corretas, as consequências serão positivas. Do lado da atividade econômica, uma Selic estável – ainda que em nível elevado – permite melhorias nas expectativas. Essa estabilidade pode sinalizar o início de um ciclo de redução da taxa mais adiante, melhorando as expectativas empresariais.

Do lado do programa de ajuste do governo, uma interrupção do ciclo de alta das taxas de juros contribui para reduzir a expansão da dívida pública e permite que um saldo primário menor possa ter o mesmo efeito que um saldo maior com contas de juros também majoradas.

Além disso, leitores atentos aos comunicados do Comitê de Política Monetária do Banco Central (COPOM) notaram que a expressão “os avanços alcançados no combate à inflação ainda não se mostram suficientes”, que constava dos comunicados anteriores, não apareceu na última edição desse documento. Essa ausência reforçou adicionalmente a percepção de alguns de que o ciclo de alta dos juros pode estar chegando ao fim.

Levado em conta tudo isso, o mercado incorporou essa melhoria nas expectativas, demandando menores taxas nos contratos de juros futuros praticadas na Bolsa de Mercadorias e Futuros. Também ajudou nessa queda das taxas futuras de juros a redução nas taxas de juros praticadas no mercado internacional.

Tudo isso, evidentemente, depende de dois fatores críticos: o desempenho da economia e o comportamento, não da inflação futura, mas da inflação presente.

A forte tendência de queda na produção industrial, da ordem de 10% nos últimos doze meses, pode ter dois tipos de influência no ritmo de mudança na taxa de juros do Banco Central.

Primeiro, a retração da atividade industrial implica queda no emprego e na renda dos trabalhadores. Essa queda se reflete na demanda dos consumidores, colocando menor pressão sobre os preços. Segundo, o Banco Central não é insensível à queda da produção, acentuada pelas altas taxas de juros.

O comportamento da inflação presente também é crítico por influenciar as expectativas dos agentes econômicos com relação à inflação futura. Um dos objetivos do regime de metas de inflação é justamente transmitir aos agentes a firmeza do compromisso do Banco Central com relação ao controle da inflação.

Quando impera a confiança na ação do Banco Central, reduzem-se as expectativas de inflação futura e isso ajuda no esforço de atingimento da meta nos 18 meses seguintes. Mas se a inflação presente se mostra renitente, essa confiança pode reduzir-se. Foi justamente essa exacerbação das expectativas, refletida no boletim Focus, que levou ao atual ciclo de elevação da Selic.

No mercado, já agora mais confiante no BC, não somente reduziu-se o prêmio de risco embutido nos contratos futuros de juros, como já se projeta que somente ocorrerão dois aumentos na Selic antes da estabilização da taxa. O primeiro ocorreria na próxima reunião, com alta de meio ponto percentual na taxa, e uma alta final de 0,25% na reunião de setembro.

O Banco Central tem recebido uma contribuição de fora, talvez inesperada. Muitos acreditavam que um mau desenlace da crise grega afetaria de forma grave o mercado. Se assim fosse, isso imporia um aumento nas taxas de risco incorporadas nas taxas de juros.

Contudo, pelo visto o mercado considera que o risco de contágio a outros países do Mediterrâneo é pequeno. Não somente não se elevaram as taxas como o dólar depreciou-se após o anúncio dos dados do emprego nos Estados Unidos. Do nosso ponto de vista, isso ajuda, já que o real se valorizou, e essa valorização ajuda a manter em linha os preços dos produtos importados.

É claro que tudo o que foi dito não é um filme, projetando com nitidez o futuro. Trata-se mais de uma fotografia do momento atual e alguma inferência sobre os possíveis cenários à frente.

O certo é que persiste forte volatilidade nos mercados. As expectativas de hoje podem não se sustentar mais adiante. De qualquer forma é reconfortante, após um tsunami de más notícias na frente econômica, vislumbrar alguma coisa positiva. A hora é de torcer por elas.






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