Opinião

Avanços, recuos e dúvidas


O que, além do isolamento, está sendo feito para que o “abre e fecha” possa ter um fim?


  Por Marcel Solimeo 03 de Março de 2021 às 18:13

  | Economista


A escalada da pandemia pela covid-19, com o surgimento de novas cepas de maior transmissibilidade, está levando os governos a adotarem, novamente, medidas de restrições às atividades econômicas e à mobilidade da população. Isto vem ocorrendo em vários estados brasileiros, inclusive São Paulo.

A volta à fase vermelha repete o vai e vem da política e controle da pandemia, que vem sendo adotada no estado desde março do ano passado. Parece inevitável que essas medidas sejam adotadas para reduzir, em um curto prazo, a pressão excessiva sobre o sistema de saúde.

Embora essas restrições possam ajudar no curto prazo, cada vez que são adotadas apresentam um custo econômico, social e, inclusive, sanitário maior.

Existe ainda a suspeita de que, quando se adota novo isolamento depois de a população ter circulado mais ou menos sem as cautelas recomendadas, essa situação provoque aumento da contaminação daqueles que permaneceram em casa.

De qualquer forma, como isolamento não é vacina, muitas perguntas aguardam respostas. A primeira é: o que, além do isolamento, está sendo feito para que o “abre e fecha” possa ter um fim? Tem sido feito o rastreamento das pessoas que tiveram contato com os infectados com a nova cepa? Tem sido feita testagem em massa nas regiões de maior incidência da contaminação? Afinal, o que tem sido feito além do isolamento?

No caso específico da cidade de São Paulo, existem muitas outras indagações. Os especialistas, no geral, divergem apenas na intensidade do isolamento. Varia de horários mais brandos das restrições até propostas de lockdown por longos períodos. 

Só não houve, ainda, uma proposta de blackout, como São Paulo viveu em 1.944, durante a guerra, quando as ruas e as casas ficavam no escuro a partir das 21 horas.

Sem entrar na discussão da dosagem, cabe mais uma indagação: as medidas propostas se aplicam à “cidade invisível”?

Essa denominação foi utilizada por um líder comunitário para protestar contra a forma como eram divulgadas as mortes por covid-19, contabilizadas por bairros, ao invés de mencionar o local efetivo onde ocorreram. Isso tornava as favelas, onde ocorriam grande número de mortes, invisíveis do ponto de vista epidemiológico e não despertava reações sobre a precariedade das condições naqueles locais.

Esse líder se referia, segundo dados divulgados pela Prefeitura de São Paulo, na ocasião: 1.728 favelas, 400 mil famílias e mais de dois milhões de habitantes. Destacava o fato de haver algumas comunidades que recebiam atenção da sociedade por estarem bastante próximas de áreas mais centrais e encobria a realidade da grande maioria das favelas mais distantes.

Será que esse quadro dramático não limita a eficácia das medidas de restrições? Escrevi sobre isso em maio de 2020, com essas mesmas perguntas.

A “cidade invisível”, no entanto, não se limita às favelas.

São Paulo tem 1.479 cortiços, grande parte no centro expandido, cujas condições de habitabilidade, no geral, são piores do que na maioria das favelas. A superlotação faz com que em alguns quartos desses conjuntos não entre sequer a luz do sol. Soma-se aos cortiços as mais de 400 pensões e habitações coletivas e os cerca de 24 mil moradores de rua.

Será que os modelos científicos nos quais se baseiam os especialistas para fazer suas recomendações ao governo levam em consideração a “cidade invisível” ou isso ainda é irrelevante?

Será que só nos resta esperar que a vacina permita relativa normalização da situação? Será que passada a pandemia a “cidade invisível” será lembrada e terá atenção?

Perguntas existem muitas. Mas talvez, como ocorreu até agora, não tenhamos respostas, embora ainda tenhamos o direito de perguntar.

 

IMAGEM: Thinkstock






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