Opinião

Assim não vai


Não há futuro para o País se ele continuar submetido a um governo corrupto, este ou qualquer outro futuro.


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 14 de Dezembro de 2017 às 17:05

  | Historiador


Merece atenção, pela amplitude e consistência dos dados políticos, econômicos e sociais, o relatório “Brasil: Cenário melhor, mas ainda incerto para 2018 e 2019”, de 11 de dezembro passado, feito pelo departamento econômico do banco Credit Suisse no Brasil, de autoria de Nilson Teixeira, Iana Ferrão, Leonardo Fonseca e Lucas Vilela.

Se for lido como deve pelas nossas lideranças institucionais e setoriais, certamente fará mais bem ao País do que o do banco Goldman Sachs, que fez o Brasil da era Lula enveredar pela miragem dos BRICs.

De seu conteúdo se destacam dois aspectos, o político, concentrado na eleição de 2018, e o econômico, eixado na radiografia da atividade no País.

No primeiro, os autores procuram deixar evidentes as vantagens de uma coalização do PMDB, com ou sem PSDB, tanto na disputa eleitoral de 2018 quanto na implementação de reformas a partir de 2019. No segundo aspecto, salta à vista a demonstração da perda de eficiência da economia brasileira nos últimos anos.

O relatório pode ser visto como eminentemente técnico, porém o contexto no qual foi lançado permite que dele se extraiam conclusões mais abrangentes sobre o momento atual e o futuro imediato do País.

As sucessivas vitórias do governo Temer, com as rejeições pelo TSE, em junho, da cassação de sua chapa; pela Câmara, em agosto e outubro, de duas denúncias, uma por corrupção passiva e outra por organização criminosa e obstrução da justiça; e pelo STF e Senado, em outubro, do afastamento de Aécio, seu aliado de oportunidade, deram-lhe condições de irradiar uma candidatura própria à eleição presidencial, com ou sem apoio do PSDB.  

A estratégia para esse projeto envolve iniciativas facilmente observáveis, agrupadas em três eixos.

O primeiro é a neutralização dos efeitos políticos da Lava Jato, por intermédio de uma campanha de afronta e descrédito e de uma guerra aberta do Congresso contra quaisquer medidas moralizadoras, ambas com epicentro palaciano.

Em segundo lugar vem o alento à candidatura espantalho de Lula, útil para afugentar os eleitores conservadores para a sua coligação dita de centro, enquanto se articula a desconstrução da candidatura Bolsonaro.

E finalmente, mais discreta, mas nem por isso menos importante, a composição das cúpulas institucionais com o grupo político do Planalto, em que se enquadram a armadilha montada para o General Mourão e as manifestações públicas do novo diretor da Polícia Federal.

É por sobre essa realidade que se deve apreciar a análise do relatório que alinhava determinantes que um mínimo de bom senso teria tornado efetivas há muito no País: melhoria do ambiente de negócios; adoção de novas tecnologias; adequadas regulação e atuação do judiciário; tamanho e eficiência do Estado; qualidade educacional e abertura comercial.

Essas determinantes compõem o que se denomina Produtividade Total dos Fatores (PTF) que é o conjunto formado pelas distintas dimensões de uma economia, as quais, como se vê acima, não são necessariamente econômicas.

Há no relatório, por certo, algumas indulgências. Como relacionar o ambiente benigno dos anos 2000 à expansão real do crédito para pessoa jurídica, com elevada contribuição do crédito direcionado, que hoje sabemos bem no que resultou para o País.

Ou que houve uma significativa alta da escolaridade da população entre 2001 e 2017, algo que não se sustenta diante da catástrofe educacional brasileira.

O importante é que ele atinge perfeitamente o seu objetivo mais visível nesses tempos eleitoreiros, ao indicar a medida mais provável de ocorrer que traria maior impacto sobre a economia: a vitória nas eleições de um candidato comprometido com a agenda de ajustes, criando condições financeiras mais favoráveis para a recuperação cíclica da economia.

Objetivo bom, mas insuficiente para um país com o gap institucional e social do Brasil, cuja recuperação não pode ser cíclica. 

Mais consistente e talvez menos percebida é a conclusão sobre os ajustes que sustentariam um aumento do crescimento de longo prazo, destacando-se entre eles a melhoria das instituições.

No estudo, de todas as determinantes da PTF com impacto no crescimento da economia, no caso do Brasil, a mais importante, a que implicaria em maiores benefícios à economia do País, seria a da elevação do nível de integridade do governo, confirmando cientificamente o que se tem dito e repetido: não há futuro para o País se ele continuar submetido a um governo corrupto, este ou qualquer outro futuro.

Tudo junto e considerado, trocado em miúdos, já temos o slogan para a campanha eleitoral de 2018: assim não vai Brasil!

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio