Opinião

As desrazões do barroquismo


Com o advento da redemocratização, o que vemos é o surgimento de um irracionalismo renitente na expressão de um antielitismo cultural implícito no populismo cultural esquerdista


  Por Jorge Maranhão 11 de Maio de 2018 às 08:14

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


Diante da permanência de fatos tão desarrrazoados no cenário político nacional, tão ao gosto do contrassenso barroco, parodio no título deste artigo nosso grande ensaísta e filósofo Sérgio Paulo Rouanet que escreveu um belíssimo livro sobre “As razões do Iluminismo”.

Mais do que o fato histórico da “Ilustração”, o “Siècle des Lumières” havido na França setecentista, como movimento filosófico e político promovido pelos filósofos racionalistas Voltaire, Diderot, Montesquieu, Rousseau e outros, o iluminismo se espalhou mais pela Europa setentrional, como “Die Aufkrärung” alemão e “The Enlightenment” inglês.

Já a Illustrazioni ou Ilustración, nos países meridionais da Europa, como Itália e Espanha, não fosse pura ironia, seriam mais um tipo de desenho do que propriamente um evento filosófico. Daí o campo aberto para a formação do rodamoinho barroco.

No que toca ao Brasil, caudatário dos valores europeus meridionais, o autor nos contempla com um ensaio sobre “O novo irracionalismo brasileiro” que localiza a partir do golpe de 64 e torna cativa a razão como mera “razão econômica” ou, pior, como “razão de Estado”.

Com o advento da redemocratização, o que vemos é o surgimento de um irracionalismo renitente na expressão de um antielitismo cultural implícito no populismo cultural esquerdista.  

O que vejo de nosso recente irracionalismo, prefiro atribuir aos resquícios de barroquismo que guardamos na alma. Pois tudo o que é barroco no Brasil, não é arte e literatura dos séculos XVII e XVIII, e está transposto para outros campos da expressão cultural fora das artes e das letras, é barroquismo.

Como a justiça beletrista e a política patrimonialista, assim como a moral leniente e os costumes devassos do povo, na verdade é barroquismo, manifestações do espírito barroco, resquícios das torções, retorções, contorções e distorções próprias das volutas barrocas, de nossa paixão pela farsa, burla e ironia, nosso gosto pela ambiguidade do paradoxo.

Voluta como símbolo maior do barroco, representada numa espiral em volume que, a partir de um ponto central, segue um movimento no sentido da esquerda para a direita que retorna na segunda volta da direita para a esquerda.

E assim por diante: o que é, parece ser, mas não é. O que não é, acaba sendo. E vendo melhor, não é. Amamos assistir a razão tombada pela mais pura emoção. Pela farsa e pelo paradoxo.

Há anos que observo e recolho exemplos das mais variadas manifestações de nosso espírito barroquista fora das artes e da literatura, mas nos campos da política, da justiça, da moral e dos costumes de nossa cultura, num livro que já tem mais de 280 páginas. Até agora.

Assistindo à tortura da irresolubilidade e até mesmo inutilidade das decisões vindas das altas cúpulas dos poderes de Brasília, chego à conclusão que estes senhores estão cegos diante da indignação dos cidadãos brasileiros!

Brasília é uma completa Versailles! Distante e de costas para as demandas dos cidadãos! E a Lava Jato, a cada dia que passa, exibindo as vísceras dos poderes corrompidos sem medida, correndo o risco de ser sabotada por estes inúmeros Luízes que ocupam as altas cúpulas de Brasília!

Abrimos os jornais, ligamos as tvs e só dá notícias escabrosas de delações sem fim. Tentam abafar, estancar a sangria, mas a enxurrada de denúncias de falcatruas de toda sorte não para de jorrar!

Fico a pensar nos antecedentes da Revolução Francesa, na luta monumental entre o barroco rococó dos Luízes e a ascensão iluminista dos enciclopedistas!

A lapidar citação de Montesquieu na sua luta iluminista contra o ápice do barroquismo rococó de Luiz XV: “as leis inúteis enfraquecem as leis necessárias”.

Nosso Supremo Jeitinho está tão embarrocado que não percebe a total ausência de resolubilidade e efetividade de suas decisões! Não fazem justiça, fazem teatro. E mais uma vez a farsa nos constitui!

Pela primeira vez, desde que foi promulgada, estamos a experimentar os princípios da impessoalidade e publicidade da administração pública fixados no Art. 37 da Constituição cidadã. E descobrimos que ainda não entendemos as diferenças entre legalidade e moralidade!

Quanto à eficiência, ou efetividade das resoluções públicas, ainda estamos por entender, imersos que estamos no cipoal de figuras retóricas do beletrismo jurídico nacional como circunlóquios, eufemismos, hipérboles, paradoxos e ironias sem fim!

Como, de resto, toda classe da velha política profissional que não percebe a sua inutilidade, imersa no lodaçal das procrastinações e da burla que constitui nossa alma e moral barroquistas.

Teremos de chegar a uma ruptura institucional para que vejam o tamanho de suas inutilidades? Não percebem que se mexerem na Lava-Jato poderão ter uma Bastilha em Brasília?

Não. Não percebem. Preocupados apenas em salvar as próprias peles não podem se ocupar em ver que a onda iluminista da consciência nacional dos cidadãos despertou, aflorou enfim, e não tem mais volta!

Não há mais espaço para a manutenção do dogma do irracionalismo barroquista no qual tivemos imersos nos últimos três séculos!

O país aportou na razão, na supremacia clássica do racionalismo sobre o irracionalismo barroco depois de três séculos de atraso.

A cidadania despertou irreversível deste sono dogmático do berço esplêndido! Chega de relativismo moral da suposta inexistência da antinomia dos valores absolutos de que não há certo ou errado, morte nem vida, noite ou dia, quente ou frio, preto ou branco, masculino ou feminino, direita ou esquerda!

Chega! Não se pode conceber o morno sem a noção de quente ou frio. Pois são categorias imanentes da razão.

Não se pode conceber o meio termo sem a premissa dos extremos. E assim por diante, só podemos entender o cinza por que sabemos o que é preto e branco.

Só mesmo a arrogância do relativismo moral esquerdista pode achar que escolhemos o gênero sem o dado prévio da definição do sexo! Dado pelo dom de Deus e no âmbito da Natureza, e não da cultura do homem caído do pecado da soberba!

Com três séculos de atraso, nos defrontamos, enfim, com a oportunidade de experimentar o Iluminismo, o bom senso, a razoabilidade de que o gênero humano foi munido desde a queda do Paraiso!

É chegada a hora de a cultura barroquista brasileira, sucedida por séculos de seus correlatos, como idealismo, romantismo, positivismo, esquerdismo e anarco-sindicalismo, ceder à vez ao Iluminismo que já tentamos por tantas vezes ensaiar e não conseguimos! O momento é este. 2018 é nossa exaustão do barroquismo cultural! Da “pura emoção”, como grita o locutor desesperado da tevê!

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio