Opinião

Ariadne em Brasília


Nossa sociedade, como as demais, vive também de mitos, muito bem explorados pelos políticos da hora. E qual mito se adequa a esta hora brasileira?


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 31 de Maio de 2017 às 16:14

  | Historiador


O mito precede a História, mas dela continua a fazer parte, como narrativa original de tudo, ligando-nos permanentemente ao passado, não importa em que presente estejamos.

O mito tem “autoridade, emoções, força sugestiva própria: um sujeito autônomo, dentro dos acontecimentos... Um mito contém um destino, mesmo quando não o  descreve” (ZOJA, Luigi. História da Arrogância).

Nossa sociedade, como as demais, vive também de mitos, muito bem explorados pelos políticos da hora.

E qual mito se adequa a esta hora brasileira?

Aquiles são muitos, heróis arrependidos flechados todos no calcanhar da corrupção. Ulisses extinguiram-se os poucos, hoje vozes distantes que teimavam em instilar algum bom senso ao poder.

E faltam Hércules na praça, diante das muitas dúzias de trabalhos para colocar este Brasil em ordem.

Na falta de mitos espetaculares, quando de espetacular só temos mesmo a bandalheira, talvez caiba melhor um mito mais melancólico, mas nem por isso menos eloquente.

Teseu e a viagem a Creta: o Labirinto e o Minotauro

Ariadne, Teseu, Minotauro e Dionísio cabem bem na comédia ou na tragédia brasileira? Na mitologia, quem mostrou ao herói a maneira de matar o monstro que iria devorá-lo? Quem abandonou a quem o salvou? Quem se ocultava no esconderijo perfeito, devorando todos que por lá se aventuravam? Quem salvou o salvador abandonado? 

A comicidade dos personagens e suas falas não escondem a tragédia do Brasil. Responsabilidades são negadas à revelia dos fatos, posições se invertem ao sabor dos interesses e a verdade se dilui em labirintos.

E assim vai se alargando o abismo entre a realidade e a narrativa, entre a sociedade e o poder, a cada dia raptando-se a verdade e sequestrando-se o senso comum.

Na mitologia, é incerto o destino de Ariadne, a princesa de Creta que mostrou a Teseu como matar o Minotauro no Labirinto, depois abandonada pelo herói e desposada por Dionísio.

Dos seus muitos destinos, o melhor é a possibilidade de escolhermos qualquer um deles, a grande novidade do livre arbítrio por nós conquistada alguns milhares de anos depois. 

Mas, qualquer que tenha sido o seu destino, ela terminou coroada com a obra-prima em ouro da forja divina de Vulcano. É o destino final e bom que o mito da princesa nos faculta. 

Bem distinto do destino certo e trágico de Teseu, preso a uma rocha e condenado a repetir, por toda eternidade, às sombras do inferno: “aprendei com o meu exemplo a não ser injusto...”.

Oscila o Brasil entre um e outro, prestes a abandonar a única coisa que pode salvá-lo: Justiça.

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