Opinião

Ainda há tempo


Profissionais do oportunismo não tiveram o menor pudor em faturar em cima da morte da vereadora. O de alça de caixão e o multiministerial, espécimes típicos da selva política brasileira


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 16 de Março de 2018 às 20:07

  | Historiador


O roteiro da intervenção está sendo cumprido à risca com o assassinato de Marielle Franco, uma tragédia desejada pelos feiticeiros do caos que se consumou de forma inesperada, mas inevitável, em uma terra sem lei.

Em um gol de placa, o crime colocou em xeque as forças legais, intimidou a população e insuflou a onda anti-polícia, enquanto os profissionais do oportunismo não tiveram o menor pudor em faturar em cima da morte da vereadora.

O de alça de caixão e o multiministerial, espécimes típicos da selva política brasileira. Um subindo a escadaria da demagogia e o outro intervindo na intervenção.

Suas performances dão a impressão de que há apenas duas opiniões a respeito da intervenção federal na segurança pública no Rio de Janeiro. A dos companheiros de viagem do crime e a dos temeristas, aparentemente contrárias, mas jogando o mesmo jogo de arranha e assopra dos últimos quinze anos no País.

Na verdade, um jogo de soma zero em relação aos fins anunciados: o restabelecimento da ordem no Rio de Janeiro.

Não há como restabelecer ordem alguma quando a única vontade política é eleitoreira, quando a justiça e o ministério público se omitem, quando a imprensa incensa bandidos e quando a sociedade não sabe mais o que é certo e o que é errado.

Nessa farsa, a menos culpada é a população. Há mais de trinta anos ela assiste a uma comédia do absurdo na qual um governador proibiu a polícia de cumprir seu dever, a esquerda ideologizou o crime e um ex-presidente defende a legalização do maior vetor de violência no País: as drogas.

Agora - afinal as coisas sempre podem ficar piores - a CNBB se arroga ao direito de indicar candidatos para as próximas eleições que “promovam a paz”. Não é difícil imaginar que paz seja essa.

Parece que o ato em curso da tragédia brasileira vai seguir esse roteiro até outubro próximo.

Ele vai se encerrar de forma lastimável, quem sabe em setembro, para atender o calendário político do Planalto sem deixar nada de bom, duradouro e promissor. Não há como.

Deixará, sim, um rastro de estrago, talvez irreparável, na confiança nas instituições nacionais que ainda detêm algum prestígio junto à sociedade.

E aí chegamos ao cerne da questão visceralmente exposta pelo que aconteceu ontem no Rio de Janeiro.

Como chegamos a esse ponto?

Em que os principais veículos de comunicação do País fazem a apologia da desordem social.

Em que políticos cínicos, insensíveis e impatrióticos manipulam situações e instituições para seus propósitos de poder.

Será que não existem lideranças setoriais, políticas e institucionais no Brasil capazes de enxergar o desfecho irremediavelmente desastroso disso tudo? Para todos?

A derrota do bem, da lei e da ordem que se delineia no Rio de Janeiro repercutirá no destino do Brasil. Disso não há dúvida. Até por que há quem aposte no desastre, trabalhando com afinco para uma miríade de interesses de coordenadas surpreendentes, aqui e no exterior.

Ainda há tempo de os brasileiros se darem conta da guerra em que o País está envolvido.

 

IMAGEM: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 

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