Opinião

A tênue linha vermelha


A normalização da vida no País é condição necessária para a superação da crise. Sem paixões, arroubos e extremismos é mais fácil encontrar soluções para os nossos problemas


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 28 de Novembro de 2018 às 17:20

  | Historiador


A tênue linha vermelha é uma expressão de grande dramaticidade que representa a diferença mínima entre salvação e catástrofe.

Nasceu como menção à rarefeita formação da infantaria britânica que impediu o desastre frente à arremetida aparentemente irresistível da cavalaria russa na batalha de Balaklava, travada a 25 de outubro de 1854, na Guerra da Crimeia.

Hoje, a cor da expressão não se refere mais aos casacos da infantaria inglesa, mas sim ao quão pouco dista o sucesso do fracasso.  

O Brasil escapou por pouco do desastre que significava a instalação de uma democracia de fachada consubstanciada em autoritarismo, corrupção e permissividade. Agora é preciso seguir em frente.

A normalização da vida no País é condição necessária para a superação da crise. Sem paixões, arroubos e extremismos é mais fácil encontrar soluções para os nossos problemas. Sem acrescentar outros, desnecessários.

Normalizar é, todavia, condição necessária, mas não suficiente, pois os brasileiros estão diante do desafio de uma verdadeira reconstrução nacional, antes de tudo, da confiança nas instituições, nas autoridades e no Estado.   

A sociedade brasileira já mostrou que é contra tudo aquilo que o PT representa, como se disse acima: autoritarismo, corrupção e permissividade.  

Entretanto, em pouco tempo, o momentum mudou. Já é outro, bem diferente.

Não mais de ser contra algo que passou, mas sim do que fazer para o que passou não voltar. Fazer aquilo que o marxismo de vários matizes impediu que fosse feito em prol do desenvolvimento integral da sociedade brasileira.  

O marxismo foi sempre uma crise da cultura, de rejeição ao ethos de modernização da sociedade ocidental. Suas origens profundas podem ser identificadas nas heterodoxias panteístas que desde a Alta Idade Média evoluíram até a dialética hegeliana.

Assim, de alguma maneira, o marxismo estará sempre presente na cultura ocidental, pronto a emergir sob diversas formas, nas mais diferentes expressões da vida social, na tentativa de reconstruir a sociedade segundo a sua utopia.

No entanto, nenhuma nação desenvolvida condicionou seu interesse a utopias. Ao contrário, o assomo de utopias ao longo da História foi sinal da incapacidade de determinadas sociedades em responder aos desafios que as confrontavam.

No Brasil dos anos 80, uma sabedoria costumava dizer que o País tinha problemas maiores do que o comunismo.

Sábias palavras, já que os problemas do Brasil antecediam e superavam o marxismo, que jamais teve respostas para eles. Proféticas palavras, pois nas décadas seguintes, problemas cada vez maiores oportunizaram a ascensão do marxismo no País, na medida em que se alimentavam mutuamente.      

Se o Brasil do século XXI fizer o que deve para enfrentar os seus verdadeiros problemas, o marxismo será remetido à sua essência como distopia latente, de uma hybris em eterna procura por sua nêmesis.  E pode ficar por lá para sempre, se entendermos que para o vencer é preciso muito mais do que combate-lo.

A melhor maneira de uma sociedade chegar a algum lugar é ter uma política que assinale os seus grandes objetivos, não os de outros. Afinal, quem não têm muito claros e definidos os próprios objetivos acaba fazendo parte dos objetivos de alguém, até mesmo por negação.

Essa é a tênue linha entre o fracasso e o sucesso do Brasil.  

Saber distinguir o que deve ser feito da mera reação ao que não devia ter sido feito.

IMAGEM: Reprodução/The Thin Red Line (1881), Robert Gibb National War Museum – Edinburgh

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio