Opinião

A saída de Salim


A uma mudança política antecede, obrigatoriamente, uma mudança cultural. E a carta de despedida do agora ex-secretário nacional de desestatização deixa isso claro


  Por Jorge Maranhão 17 de Agosto de 2020 às 09:28

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão e autor de "Destorcer o Brasil. De sua cultura de torções, contorções e distorções barroquistas". Email: jorge@avozdocidadao.com.br


Todo cidadão de bem deste país deveria ler e refletir sobre a carta de despedida do secretário nacional de desestatização, Salim Mattar. É um documento histórico que, como poucos, revela o impasse civilizatório em que esta nação está imersa há séculos.  

Um documento da mais alta sensatez de um homem dos mais bem-sucedidos da iniciativa privada brasileira e que, por menos de dois anos de luta renhida no setor público, preferiu jogar a toalha e retornar a seu habitat natural, onde promete continuar lutando pela mudança da lamentável cultura política nacional.

Já escrevi um livro sobre o impasse brasileiro que desafia a esperança e a determinação do presidente para fazer o país voltar a crescer e trilhar o caminho de reencontro com seu grandioso destino. Que desafia também a esperança de 60 milhões de seus eleitores. Impasse que não é novo e que nos infelicita a todos os cidadãos de bem desde o golpe da república.

Pois não há atalho: a uma mudança política, antecede obrigatoriamente uma mudança cultural. E a carta deixa claro que não mudaremos a política se não mudarmos a cultura.

Com a farsa da república, começamos a construir um país cujo estado se serve dos cidadãos pagadores de impostos para a locupletação dos interesses mais vis do estamento burocrático em detrimento direto dos interesses mais legítimos e naturais dos próprios cidadãos.

Ao excelente diagnóstico de Raimundo Faoro, não conseguimos implementar um plano de ação para a mudança da cultura política.

Destaco apenas dois parágrafos da carta de Salim Mattar, não obstante o texto integral, que você pode ler aqui, ser relevante:

“No governo procura-se defender o estado, enquanto o correto seria defender o cidadão... Se no mundo dos negócios a orientação é mudar para melhorar, no governo é permanecer as coisas como são para manter do jeito que estão....

Os grupos de interesse, absolutamente legítimos e naturais em uma democracia, dificultam o processo de desestatização. Assim, o establishment composto diretamente pelos empregados públicos, sindicatos, fornecedores, comunidades, políticos locais, partidos de esquerda e lideranças políticas têm sido uma barreira natural para a privatização”.

Como vemos, estão listados na carta os legítimos interesses corporativistas dos burocratas de carreira pública e os agentes políticos fisiológicos e esquerdistas que tem se sobreposto aos interesses dos cidadãos. A questão é se avaliar quão mais legítimos são os interesses deles contra os interesses da maioria dos cidadãos.

Apenas para efeito de comparação, veja-se a conduta social daqueles agentes públicos em face da mesma conduta social dos cidadãos comuns no contexto da atual pandemia.

Enquanto estes pagaram a conta da recessão provocada, seja por fechamento de suas empresas, seja pelo desemprego em massa, os agentes públicos, salvo raras exceções, permaneceram intocáveis em suas estabilidades e, pior, sem a redução mínima que fosse de seus gordos proventos. E mais escandaloso ainda, 
sem abrirem mão de um privilégio que fosse.

Conheço vários, inclusive, que simplesmente tiraram férias sob o falso argumento de estarem trabalhando em "home office", indo para suas casas de campo enquanto aproveitavam para fazer obras em suas residências fixas. Um verdadeiro escárnio de lesa-pátria.

Resta saber que independência a alta burocracia judiciária pode ter para julgar a vil conduta social de seus próprios pares de corporativismo escancarado. Aliás, quem vai julgar os juízes?

Quem vai julgar os burocratas e políticos corruptos e os fornecedores parasitas de centenas de estatais e autarquias perdulárias?

A menos que atos de dignidade, coragem e sensatez como os de Salim Mattar, Rubens Novaes e Paulo Uebel comecem a pipocar diante da opinião pública brasileira. Pois a lista dos agentes da vilania, que já listei aqui e não custa relembrar, se explicite cada dia mais.

Bancadas parlamentares assaltantes do tesouro aliadas aos partidos esquerdistas minoritários, empresários corruptos fornecedores estatais, banqueiros oligopolistas rentistas parasitas da dívida pública, membros das altas cortes de justiça indicados por políticos corruptos, alta burocracia estatal com suas acintosas privilegiaturas, ongueiros globalistas, ambientalistas e ativistas de direitos “dos manos”, intelectuais esquerdistas aboletados em cátedras universitárias, ativistas do abortismo, da destruição da família e das minorias de gênero, artistas do showbiz viciados em incentivos fiscais, todos ecoados pelos jornalistas de má-fé, militantes do esquerdismo.

Ou seja, dez segmentos de agentes da vilania que podem ser resumidos em dois grandes grupos de altos burocratas corporativistas e políticos esquerdistas e patrimonialistas associados a empresários corruptores, ajudados pela insana classe de jornalistas, artistas, ativistas e ongueiros mamadores do estado.

Se são os políticos que os nomeiam eleitos pelos cidadãos pagadores de impostos, só existe uma saída: a gradual substituição da hegemonia de agentes de vilania por agentes de cidadania, da cultura da farsa de um estado que se serve dos impostos dos cidadãos contra a cultura de cidadãos politicamente ativos na vigilância dos recursos públicos.

E não há mágica quando a luta é renhida: substituir a cultura do barroquismo da farsa de servidores que se servem a si mesmos e políticos que só representam seus interesses, por uma cultura iluminista de desconfiança e sensatez de cidadãos comuns.

O que a eleição de Bolsonaro, contra todos os cínicos acima citados, demonstrou ser perfeitamente possível. Se a pauta de 2013 a 2018 era clara e simples luta contra a corrupção na política, o consenso que se impõe aos cidadãos para o próximo quinquênio deve ser tão simples e claro como o de enquadrar os agentes públicos que atuam contra o interesse público.

Confluindo para no máximo cinco os itens de uma pauta de transformação da cultura política nacional, cidadãos e entidades civis e de representação profissional, empresariado independente e servidores públicos de carreira bem-intencionados, o Brasil poderá cumprir o seu destino de grandeza, pela prevalência do bom senso iluminista contra a farsa barroquista da política nacional:

1. Influenciando com cancelamento de assinaturas para que os dirigentes das grandes redes de mídia passem a contratar editores liberais e conservadores para compensar a hegemonia esquerdista das últimas décadas e restabelecer a qualidade do debate público, como já tem ocorrido em muitas delas;

2. Exigindo dos parlamentares o compromisso de mudança do atual sistema de indicação política de ministros das cortes superiores, e reivindicar a tramitação dos processos de impeachment de alguns ministros do atual Supremo;

3. Exigindo dos políticos a retomada da reforma política com voto distrital puro, voto facultativo, impresso e cláusula de barreira e de desempenho (recall);

4. Exigindo a mudança do sistema de indicação de reitores para as universidades públicas, restabelecendo gestão por
desempenho, o critério de mérito e garantindo a pluralidade de ideias;

5. Exigindo a abertura do sistema de produção, gestão e de incentivo cultural para a participação equânime de agentes conservadores e liberais ao lado de progressistas, e só eleger congressistas com compromisso firmado com essa e as três medidas anteriores.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio





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