Opinião

A reinvenção do fogo


A humanidade deu um longo, demorado e significativo salto, entre a invenção do fogo e a adoção de energias renováveis


  Por Rosa Alegria 13 de Junho de 2016 às 12:33

  | Futurista, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, EUA


Somos movidos por uma milagrosa força universal que, segundo os princípios da Física, conhecemos por Energia. Enegia está em tudo, é onipresente e misteriosa. O inventor do rádio e da corrente alternada, Nicolas Tesla, uma vez disse: “se você quer descobrir os segredos do Universo, pense em termos de energia, frequência e vibração”.

A primeira versão de energia veio com a descoberta do fogo, materializada no atrito entre duas pedras. Considerada a maior inovação de nossa História, o fogo mudou a vida humana sobre a Terra. Essa foi a energia revolucionária, que introduziu a proteção, conforto e prazer na civilização, entre outras coisas. O fogo passou a nos proteger dos animais selvagens, aquecer do frio e nos permitiu cozinhar alimentos que aguçaram nossos sentidos.

Somos o que somos a partir desse fogo libertador que acionou a ignição da vida em sociedade e do desenvolvimento industrial. Quase três milhões de anos depois, ao chegarmos à primeira revolução industrial, novas energias aceleraram nosso tempo. Passamos pelo vapor que moveu durante mais de um século locomotivas e instrumentos de produção e chegamos aos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), que nos industrializaram (numa segunda fase) e tornaram possível a vida nas cidades. Mal sabíamos que combustíveis fósseis – tão milagrosos àquele momento -  iriam se tornar nos principais vilões do aquecimento global, ameaçando a nossa existência sobre a Terra.
 
Entre um ciclo energético e outro, os sinais são claros de que estamos saindo da era fóssil, suja e finita, para a era solar, limpa e abundante.  Trata-se de um momento histórico tão importante quanto foi o da descoberta do fogo. Estudioso dessa transição, o cientista ambiental norte-americano Amory Lovins, reconhecido há quatro décadas pelo ativismo em torno das energias renováveis, num de seus últimos livros “Reinventando o fogo” (Reinventing Fire, Bold Business Solutions for the New Energy Era), ainda não publicado no Brasil, aposta que vamos nos libertar da dependência do petróleo e do carvão até 2050, por meio da inovação, da maior eficiência e da mudança da matriz energética. Aqui no Brasil, a era da energia renovável já começou. Segundo o que prevê o estudo Energy Outlook (NEO), feito pela Bloomberg New Energy Finance (BNEF) até 2040, o Brasil deverá atrair US$ 300 bilhões em investimentos para energia elétrica, sendo que 70% disso será para a geração de energia eólica e solar.

A revolução está a caminho: atualmente as energias renováveis (eólica, solar e biomassa) correspondem a 14% de capacidade instalada mas deverá alcançar 51% em 2040.

A futurista Hazel Henderson, que muitos consideram a profetisa da era solar, já em 1981, em sua obra “A política da era solar”, tinha previsto que o mundo iria se libertar da dependência dos combustíveis fósseis. Outro visionário que se antecipou a essa nova realidade é o economista-futurista Jeremy Rifkin, que tem se dedicado a estudar o futuro da energia. Rifkin associa as transições energéticas em paralelo com as transições nos sistemas de comunicação. Depois do vapor, que na Primeira Revolução Industrial abriu caminho para as grandes ferrovias e consequente comunicação entre cidades e províncias, o telefone e o petróleo nos conduziram à Segunda Revolução Industrial. Agora, as energias limpas e as redes inteligentes serão dominantes na era digital (terceira revolução industrial) e na pós-digital (quarta revolução industrial).

A reinvenção do fogo pautado pela revolução das energias renováveis já começou, a exemplo das novas práticas das grandes corporações: a  Intel tem 18 projetos solares em nove de seus centros; a Microsoft é a segunda maior consumidora de energia verde nos EUA, e sua energia é gerada pela biomassa, pequenas centrais; a Whole Foods apoia a geração de energia solar e eólica para alcançar o seu objetivo de energia verde; o  Walmart adotou como alternativa a  eletricidade a partir do biogás, energia solar e eólica; 32% da energia que abastece o Google vem do biogás, da energia solar e da energia eólica; a Starbucks compra créditos de energia renovável que equivalem a 70% anuais de seu consumo para abastecer seus pontos de venda; a Apple optou pela construção de seus próprios projetos de energia renovável, a compra direta de energia limpa e a compra de certificados; a  Unilever também adotou a energia da biomassa e solar. 

Aos poucos essa mudança vão se instalando também nos pequenos empreendimentos, observáveis até nos food trucks, alguns deles que já optaram por instalar pequenos tetos solares para captar a energia mais limpa e abundante para vender seus sanduíches naturais.

Aqueles que pensavam que o fim da era do petróleo iria acabar pelo seu esgotamento vindouro estão sendo surpreendidos por outro motivo que tem deflagrado a mudança. A razão da revolução das energias renováveis não tem sido a prevenção perante a escassez, mas sim a desistência mediante a consciência. Somos cidadãos com crescente consciência ambiental.

O ano de 2015 tem sido considerado o início de uma nova era energética. Al Gore, que dez anos atrás percorreu o mundo alertando para o desastre ambiental evidenciado pelos cientistas da ONU (IPCC), voltou ano passado repleto de entusiasmo ao se dizer surpreso pelas notícias redentoras. Vale a pena assistir a uma de suas apresentações na série TED Talks que aconteceu ano passado, em Nova Iorque, na qual ele constata sua fé no futuro. Ele reporta que as melhores projeções há 16 anos eram de que em 2010 o mundo seria capaz de instalar 30 Gigawatts de capacidade eólica. Nós excedemos 14,5 vezes essa marca. No caso da energia solar, há 14 anos, previa-se 1 GigaWatt por ano. Em 2015 a marca foi ultrapassada em 68 vezes!

Os resultados para a indústria petroleira têm representado verdadeiros sobressaltos. A recente edição da revista Exame de 26 de abril intitulou uma de suas matérias assim: “Para sobreviver, as petroleiras terão que vender ativos”. Inúmeras outras notícias dessa natureza têm pautado a mídia mundial, informando perdas históricas em 2015 e indicando o fim da era das energias fósseis comprovadas por dados históricos. No ano passado, a BP (British Petróleo) perdeu US$3,3 bi, a Shell perdeu US$7,5 bi e a Exxon lucrou 50% menos do que em 2014.  Por outro lado, Portugal conseguiu passar quatro dias apenas com energias renováveis. Ainda nesse mês de junho a BBC destacou que os países emergentes superaram pela primeira vez os mais ricos no investimento em energia limpa. A energia eólica é agora a opção mais barata, tanto na Inglaterra como na Alemanha. A Noruega vai proibir venda de carros movidos a gasolina até 2025. Elon Musk, dono da Tesla, há muito tempo tem apostado nos carros elétricos e vai inaugurar giga fábrica de baterias em julho, em Nevada, nos EUA.

A previsão do IPCC é a de que o mundo em 2050 será 70% abastecido por energias renováveis. A WWF é ainda mais otimista, estimando esse índice em 100%. Temos que torcer para que isso aconteça porque a demanda mundial requer essa revolução. Para a humanidade sobreviver em boas condições, daqui a quinze anos será necessário um incremento de 50% no fornecimento de energia para atender o crescimento populacional que trará 1,5 bilhão de pessoas a mais no planeta.

Lembro de quando me conectei pela primeira vez à Internet, há mais de 20 anos. Parecia que tudo o que eu estava vivendo tinha adquirido um novo sentido na forma de me relacionar e de me comunicar.  Descobri um novo mundo, assim como eu e muitos estamos descobrindo um novo sentido na forma do mundo gerar e consumir energia. 

É incontestável que a revolução dessa década será a revolução da energia, e que o fogo que deu continuidade à nossa espécie está sendo reinventado, dessa vez não para queimar e destruir o que a Natureza nos deu mas para valorizar o que nela é abundante, limpo e renovável.

 






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