Opinião

A presidência de cada um


O problema não está no populismo. O problema está nas lideranças medíocres que enfeixaram o poder nos principais países do mundo na última década, inclusive no Brasil


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 31 de Outubro de 2016 às 08:53

  | Historiador


Lá pensando com seus botões, às vésperas das eleições presidenciais, os americanos devem estar se perguntando como chegaram ao atual estado de coisas.

Afinal, “Hillary Clinton é a segunda mais impopular candidata à presidência já vista, depois de seu oponente Republicano, Donald Trump” (The Economist), o que dá a dimensão histórica do desarranjo na política dos Estados Unidos.

Uma análise desapaixonada revela de antemão que o problema não está nos candidatos em si, mas na política norte-americana, carente, há décadas, de lideranças críveis e competentes.

Por mais que Hillary Clinton tente ser ela mesma – o que também está longe de ser uma unanimidade - , a lembrança dos escândalos da administração de Bill Clinton e do seu polêmico papel nela nutrem profunda desconfiança de parte do eleitorado e dos políticos norte-americanos.

E  a despeito de Trump tentar vocalizar a insatisfação de um número crescente de americanos com os governos de Washington, a sua conduta pessoal e a sua falta de preparo colocam perspectivas sombrias a respeito de uma sua eventual presidência do país que detém as mais pesadas responsabilidades mundiais.    

Este é um problema exclusivo dos Estados Unidos? Dificilmente.

O início do século XXI não foi nada auspicioso em termos de lideranças políticas nos principais países do mundo.

Tivemos Tony Blair (1997-2007), George Bush (2001-2009), Berlusconi (2001-2006 e 2008-2011), Nicolas Sarkozy (2007-2012) e .... Lula (2003 -2010). Noves fora, tivemos uma guerra absurda e muito escândalo, corrupção, crise e recessão, para todos os gostos.  

Não há espaço aqui para uma história política comparada de países tão distintos, mas salta à vista, pelo mero registro histórico dos fatos e feitos, a diferença entre os principais dirigentes mundiais do início dos anos 2000 e os de uma geração anterior.

Ronald Reagan (1981-1989), Margaret Thatcher (1979-1990), Helmut Kohl (1982-1998) e Felipe Gonzalez (1982-1996) conduziram os seus países em meio a crises muito maiores, conseguindo reverter situações difíceis e obtendo êxitos consagradores.

Foram eles que construíram as condições para os grandes sucessos dos anos 90: o fim da Guerra Fria, a criação da União Europeia, a liberalização do comércio internacional, a inserção comercial e produtiva da China, a globalização que tirou milhões de pessoas da pobreza e os avanços na paz e estabilidade mundiais.

Muitos desses avanços estão em xeque hoje. Na Europa crescem as tensões com a Rússia, a Grã-Bretanha está deixando a União Europeia, o protecionismo mundial está em alta e há uma crescente preocupação no Mar do Sul da China por conta das pretensões de Pequim em desrespeito à recente decisão da Corte Permanente de Arbitragem do Tribunal Internacional de Haia.

Da incapacidade dos governos dos Estados Unidos e europeus em lidar com a questão da imigração não se salvou nem a chanceler alemã Angela Merkel, desde 2005 uma notável exceção em meio à mediocridade mundial.

Punida na última eleição pela maneira como administrou a questão dos imigrantes, seu futuro é incerto, o que levanta fundadas preocupações sobre a política alemã.

E Barack Obama vai terminando seu período no Salão Oval com os Estados Unidos ainda mais divididos racialmente, deixando um legado inexpressivo diante das grandes expectativas  geradas com a eleição em 2008 do primeiro presidente negro da história do país.

Mas tão ruim quanto a parvidade dos principais líderes mundiais é o reducionismo que faz do populismo o grande problema político do momento, uma explicação onde cabem Brexit, Marine Le Pen, Trump e Pegida, a agremiação de extrema-direita alemã.

Aliás, exatamente como fez Obama em discurso na ONU em 20 de setembro passado (“a crude populism”) e antes, em 29 de junho, durante a cúpula dos Líderes da América do  Norte em Ottawa,  invertendo o sentido do termo para atacar Trump.

Um pouco de lógica e bom senso diz algo diferente. Populismo, como se viu no tumultuado século XX, é um meio para alcançar e manter o poder, dificilmente a causa das crises. O que gera crise é falta de liderança diante do problema que se agrava. E não foram poucos os incompetentes e mal intencionados que apelaram ao populismo.

Além disso, é preciso distribuir mais carapuças. O populismo pode estar no poder, como experimentaram os brasileiros. E vale  lembrar que, tão populista quanto defender a construção de um muro na fronteira, é pregar a extensão indiscriminada de direitos em descompasso com a realidade econômica e social  do país e sem qualquer compromisso dos beneficiados.

Não, o problema não está no populismo. O problema está nas lideranças medíocres que enfeixaram o poder nos principais países do mundo na última década, inclusive no Brasil.

Graças a elas, problemas pré-existentes se agravaram de maneira exponencial, levando a um quadro de decadência e tensão, de todos matizes.

Cada país com seus problemas, a começar pela presidência, seja lá como se chame em cada qual.

Os americanos agora, nós em 2018.

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