Opinião

A prática do discurso


Quem faz não pode continuar a ser achacado por quem se acostumou a extorquir. A corrupção só será vencida se prática e discurso se encontrarem, de cima a baixo no País


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 03 de Julho de 2016 às 12:59

  | Historiador


Sinalizando a volta do Brasil ao futuro, o presidente da República fez mais uma declaração - “precisamos democratizar e reconstitucionalizar o País”  (Michel Temer, 01/07/2016) – que, não fora seu significado, é da maior importância, considerando-se as circunstâncias em que foi proferida: durante reunião no Palácio do Planalto com os Ministros da Defesa e da Justiça e os Comandantes das Forças Armadas. 

É o compasso no qual Temer rege a orquestra do governo, uma alternância entre o econômico e o político, entre o que pode e o que deve ser feito, entre o importante e o urgente, que começa a soar bem aqui e lá fora.

Como se diz na esquina, parece que as coisas vão melhorar, a começar pelo governo. 

Pelo menos, desse que aí está as pessoas são excluídas para responderem à Justiça e não o contrário, que acontecia no anterior, no qual uns ingressavam (ou tentavam) para dela fugir.
 
Passados menos de dois meses de sua posse, o governo conseguiu se descolar da administração anterior (13% a 9% de aprovação e 39% a 69% de desaprovação), a economia sinaliza uma recuperação gradual, e a valorização cambial mostra uma melhoria do risco-país. 

Tudo indica que, diante dessa inflexão de percepções, o governo entendeu que chegara o momento de um aceno institucional, não só o da sexta-feira passada em direção aos organismos de defesa do Estado e das instituições democráticas, como também em relação à Justiça, feito anteriormente, em cerimônia no Planalto, a que compareceram Ministros do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal do Trabalho, na qual ecoou outra declaração: “O país está enfermo...” (Teori Zavascki, 23/06/2016).

E o procurador da Justiça coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, no discurso que proferiu na Câmara de Deputados em defesa do projeto de lei de iniciativa popular “10 medidas contra a corrupção”, não fez por menos: “a corrupção mata” (Deltran Dallagnol, 22/06/2016).

Esses podem ser os primeiros movimentos de uma pacificação institucional, essencial à normalização da vida pública do País, algo que só pode se dar a partir da existência de um governo responsável, que, se por um lado ainda não está plenamente instituído de direito, vai se legitimando como tal. 

Mas tantas declarações de significado e importância denotam algo mais: reverberando a voz das ruas, há um novo discurso em construção no Brasil.

Uma versão dele está bem afinada, porquanto se confirma na ação de juízes, promotores e policiais que protagonizam uma verdadeira guerra contra a corrupção no País. É o caso do discurso que encontrou a sua prática, no combate ao mal.

Mas a cada um as suas responsabilidades. 

Policiais investigam, promotores denunciam e juízes julgam, como elementos essenciais que são à vigência da lei e da ordem em uma sociedade digna desse nome. 

Porém, de fato, um país é feito por quem faz: produtos, bens, serviços, leis e governança, justamente as atividades nas quais se entranhou a corrupção. Neste caso, trata-se de uma prática que precisa encontrar o seu discurso, para se livrar do mal.

Desse encontro depende a recuperação do Brasil. É preciso que as lideranças setoriais do País se insurjam contra a corrupção, para impedir que ela continue matando. Quem faz não pode continuar a ser achacado por quem se acostumou a extorquir. A corrupção só será vencida se prática e discurso se encontrarem, de cima a baixo no País. 

Houve momentos de nossa História em que isso esteve mais claro, ao menos nas palavras de um político que, ao assumir a direção do governo, pode dizer aos seus pares: 

“Os nossos atos senhores senadores devem valer mais do que as palavras. Peço a todos que nos julguem por nossos atos." (Marquês de Caxias, 3/05/1861).

Os brasileiros de bem podem e devem ser os “caxias” de seus próprios destinos.

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