Opinião

A ponte


A Ponte para o Futuro pode abrir o caminho da vitória do Brasil sobre o subdesenvolvimento, o atraso e a instabilidade política


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 13 de Junho de 2016 às 11:07

  | Historiador


O Brasil tem rumo.

Ele teve que ser redefinido no final de 2015, quando a população exigiu o afastamento da presidente Dilma Rousseff e ficou claro o desastre que havia se abatido sobre o País. 

E tudo indica que esse rumo, traçado em um documento de clarividência e profundidade estranhas ao mundo político brasileiro, “Uma Ponte para o Futuro”, vai ser seguido pelo atual governo, ao menos se levarmos em conta algumas declarações emitidas pelo presidente Michel Temer nesses seus trinta dias no Planalto.

Primeira. “O Estado que queremos não é grande nem pequeno. É o Estado suficiente. E, portanto, eficiente. Um Estado que deve ser de todos” (01/06/2016). Apoiada no entendimento de que o Estado é a sociedade politicamente organizada, essa afirmação é uma resposta à população brasileira que assistiu o Estado nacional ser aparelhado, saqueado, quebrado e quase subjugado por um projeto de poder criminoso implementado nos últimos treze anos. Poder-se-ia aduzir que a sociedade, do Estado espera, mais do que eficiência, os outros atributos da qualidade: a eficácia, aferida pelos resultados por ele alcançados, bem como a efetividade, definida no que o Estado realmente deve fazer.  

Segunda. “Este é um país que precisa ser reinstitucionalizado. Ao longo do tempo, perdemos o respeito das instituições" (08/06/2016), afirmação da maior contundência, por conta do duplo sentido que encerra. Se perdemos o respeito às instituições, foi também porque, como cidadãos, deixamos de ser respeitados por elas, ambas acepções admissíveis.  Se essa duplicidade foi intencional, melhor, mas que aproveitemos essa licença semântica para augurar tempos melhores no Brasil nos quais finalmente emerja a relação de dupla via entre governados e governantes, constituintes do mesmo Estado.


Terceira.  “É uma guerra, tem sido uma guerra”, (11/06/2016), disse Temer sobre o seu primeiro mês de governo, transmitindo a sensação de um governante que enfrenta gravíssimos problemas e que se depara não com uma oposição política, mas enfrenta um inimigo político, que deve ser superado pelos instrumentos legais e institucionais da democracia representativa alicerçada no Estado de Direito.

Tempos de crise lembram os de guerra, a crise por excelência, e neles é comum abundarem as metáforas militares, como ocorre nesse momento no noticiário nacional. E note-se que, ainda hoje, boa parte dos exemplos de atividades militares está referenciada ao maior conflito da História, a Segunda Guerra Mundial, encerrada há mais de setenta anos.

O conhecimento, a tecnologia, a doutrina militar e as sociedades mudaram muito desde então, mas a batalha de Kursk (5 a 16/07/1943), o desembarque na Normandia (06/06/1944) e a Operação Market-Garden (17 a 25/09/1944) continuam sendo o maior confronto de blindados, a maior operação anfíbia e a maior operação aeroterrestre da História, das quais, até hoje se extraem ensinamentos para as modernas doutrinas militares.

E é a última delas, a Market-Garden, que pode ser usada para ilustrar a situação político-econômica que vive hoje o Brasil.

Em setembro de 1944 a Inglaterra, depois de cinco anos de guerra, estava exausta. O sucesso do Dia D, três meses antes, e a destruição de consideráveis forças alemãs nas batalhas que se seguiram na França levaram ao sempre cauteloso e detalhista Marechal Montgomery (Bernard Law, 1887-1976) a elaborar uma audaciosa operação militar e a usar todo o seu cacife político para convencer seus aliados norte-americanos a apoia-lo.

Tratava-se de lançar três divisões paraquedistas aliadas, a 82a e 101a norte-americanas e a 1a britânica, mais a 1a Brigada polonesa, para assaltar e manter sucessivas pontes sobre rios e canais, enquanto o XXX Corpo de Exército blindado avançaria por elas numa penetração de 97 Km que o levaria ao coração do Ruhr, a rica região industrial da Alemanha, com o que se esperava abreviar consideravelmente a guerra. Por qualquer ângulo, o plano era genial e arriscado. E podia ter dado certo.

Quem assistiu o magnífico filme que retrata a epopeia, de Richard Attenborough, não se esquece da cena final na qual os generais comandantes aliados, assistindo do alto de uma torre de igreja a evacuação dos remanescentes da 1a Divisão sacrificada na tentativa de conquistar e manter a última ponte, já sobre o Reno, em Arnhem, discutem qual teria sido a razão do fracasso da operação que deveria ter colocado as suas forças no coração da Alemanha nazista.

A Ponte para o Futuro, que pode levar o Brasil a reverter uma história de trinta anos de crescimento econômico insuficiente e não sustentado, guarda um notável paralelo com a ambiciosa Market-Garden concebida por Montgomery. É tudo ou nada. Não adiantará conquistar quase todas as pontes se não for assegurada a última. Sem a consecução do objetivo final, todos os esforços vão levar a mais um lugar nenhum.

O filme de Attenborough sugere que a operação fracassou por ter um objetivo final muito distante. Pode ser, mas poucos duvidarão que se a operação Market-Garden tivesse sido entregue a certo general norte-americano ela seria coroada de êxito e mudaria o curso da História. 

A Ponte para o Futuro pode abrir o caminho da vitória do Brasil sobre o subdesenvolvimento, o atraso e a instabilidade política. Mas para isso, a partir de agora, o comandante Temer tem que se inspirar em Patton (George S., 1885-1945) e não em Montgomery, para que ela não seja a Ponte Longe Demais.

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