Opinião

A política e o coronavírus


Alguns estados e municípios poderiam ter números elevados de doentes e mortos simplesmente por motivação política ou para permitir acesso a maiores recursos extraordinários


  Por Rodrigo Sias 29 de Maio de 2020 às 16:53

  | Mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro


*Com André Barboza, economista e membro IBCON

Frente a um problema tão grande quanto o da pandemia da covid-19, nada parece ser tão indicado quanto tratar o tema com objetividade, sem ideologias ou visões preconcebidas. Para isso, o melhor caminho é recorrer aos dados disponíveis.

A nosso favor, o Ministério da Saúde disponibilizou um portal (covid.saude.gov.br) com as informações mais confiáveis e atualizadas da situação do Brasil com respeito ao coronavírus. Tendo como fonte as informações atualizadas às 19:25 de 25/05, temos um cenário de atenção, com 23.473 óbitos acumulados por covid-19.

Porém, uma boa análise requer que procuremos mais detalhes. O Portal do Ministério tem como segunda informação de maior destaque a distribuição geográfica do número de casos, de contágio e óbitos, por regiões e estados. É nessa parte que surgem alguns números intrigantes: os indicadores de incidência e de mortalidade diferem muito entre as regiões do Brasil.

Por exemplo, na região Sul, há incidência de 55,9 casos por 100 mil habitantes, enquanto que no Norte, a incidência é de 411,9 para cada 100 mil habitantes, ou seja, cerca de 7 vezes maior.

Com relação à mortalidade, a diferença é ainda mais pronunciada: 1,5 para cada 100 mil habitantes no Sul versus 25,4 no Norte, cerca de 17 vezes superior.

Essa diferença também se verifica na comparação entre estados: os três estados do Sul têm estatísticas bastante semelhantes entre si e todas muito inferiores àquelas de qualquer estado da região Norte.

Essa diferença pode se dar por uma série de motivos: clima, contaminação inicial, distribuição e concentração populacional, sistemas de saúde melhores ou piores etc. Mas não deixa de chamar a atenção o grande abismo entre os resultados. Para ter melhor comparabilidade em uma análise, pode ser interessante tentar comparar estados ou regiões mais parecidas.

Nesse sentido, olhando para o Sudeste nos deparamos com um grande paradoxo: em São Paulo, a mortalidade é de 13,5 por 100 mil, no Espírito Santo é de 11,6 e no Rio de Janeiro é de assustadores 23,8. No entanto, em Minas Gerais, é de “somente” 1,1 (número esse bastante semelhante ao indicador já mencionado para a Região Sul).

Em números absolutos, enquanto no RJ morreram 4.105 pessoas (em uma população total de 16,5 milhões) em MG morreram 230 pessoas (em uma população total de 20,9 milhões). Como isso é possível?

Parece que a situação entre os estados é completamente diferente. Será que Minas Gerais tem um sistema de saúde 10 ou 20 vezes melhor do que o de seus estados vizinhos? Será que a população mineira adotou alguma medida única que a preveniu do contágio? Por que Minas Gerais é tão diferente?

Uma das possíveis respostas para esse fenômeno e, talvez, a mais provável, vem surpreendentemente da política. Em Minas Gerais, o governador não se contrapõe ao governo federal, o que não é o caso dos governadores de SP e RJ (e também o ES), que desde antes dessa crise faziam oposição ao atual presidente e publicamente adotam medidas e atitudes diametralmente opostas ao chefe do Executivo Federal frente à forma de combater o coronavírus.

Parecem entender que um fracasso na gestão da pandemia seria considerado um fracasso que mancharia principalmente o governo federal, prejudicando assim seu principal adversário nas eleições de 2022.

Além disso, parece haver uma enorme correlação entre o aumento das verbas extraordinárias e casos de desvios de recursos. Já há diversas denúncias e investigações surgindo no estado do RJ (onde foram orçados R$ 835 milhões para construção de hospitais de campanha), e nas cidades de Fortaleza (com prejuízo já estimado em R$ 25,4 milhões em irregularidades) e Niterói, que também tem números muito altos de contaminados e essas duas últimas cidades, governadas por prefeitos de partidos opositores ao presidente da República.

O incentivo subjacente parece ser inflar o problema com a doença para poder declarar estado de calamidade pública e obter recursos extras do Governo Federal.

A deflagração desses casos, investigados pela Polícia Federal, levantam suspeita em diversas localidades que podem estar adotando algum tipo de manipulação de dados ou inflando o número de doentes.

Assim, alguns estados e municípios poderiam ter números elevados de doentes e mortos simplesmente por motivação política ou para permitir acesso a maiores recursos extraordinários – que já estão resultando em desvios de verbas via compras superfaturadas ou direcionadas.

Tais casos já estão sendo chamados de COVIDÃO, um triste apelido, análogo ao Mensalão e ao Petrolão, designando os casos de corrupção envolvendo o combate ao coronavírus.

Nessa mesma semana já foi iniciada a “Operaçao Placebo” da Polícia Federal, com diversas investigações de corrupção com dinheiro da saúde, além de secretários de alguns estados terem sido exonerados por suspeita de malfeitos.

Voltando aos dados, será que essa tese, de que a pandemia parece pior em locais que se opõem ao governo federal, tem base nos números?

A resposta é sim. Há plena correlação de números altos de contaminação e mortalidade com posições de oposição ao atual governo federal. No Centro Oeste e no Sul, onde os governadores na sua maioria não fazem oposição declarada ao presidente da República, os índices de mortalidade são 1,6 e 1,5 respectivamente (sendo muito homogênea entre os estados).

Nas regiões onde prevalecem governadores de oposição esses números são muito mais altos, sendo de 12,3 no Nordeste e de 25,4 no Norte. Essa comparação surpreende ainda mais se considerarmos que uma das poucas coisas que se sabe sobre esse vírus é que ele atinge principalmente a população idosa, e diversos estudos indicam que ele se propaga melhor no frio, o que levaria a crer que a região Sul, com o maior percentual de idosos e mais fria, seria a região naturalmente mais atingida pela pandemia.

Mas pode surgir outra pergunta: como se conseguiria manipular o número de óbitos? Isso é facilmente respondido por conta da metodologia adotada para reportar o avanço da doença. Há orientações explícitas de diversas secretarias de saúde estaduais, como as do RJ e de SP, para que todas as mortes suspeitas sejam reportadas como coronavírus, sem que seja necessário um exame comprobatório.

Nesse sentido cabe destacar que uma das doenças que mais mata no Brasil é a pneumonia, que tem os mesmos sintomas do covid-19. Em 2018, ano com os dados mais recentes disponibilizados pelo Ministério da Saúde, foram contabilizadas 81.440 mortes por gripes e pneumonias no País.

Usando esse número por base, poderíamos alegar que cerca de 6.750 pessoas morrem por mês no Brasil de gripe ou pneumonia. Se considerarmos que a contabilização de mortes já dura cerca de dois meses e meio seria plausível imaginar que nesse período teriam morrido “naturalmente”, tomando por base os números de 2018, cerca de 17 mil pessoas. Assim, caso em algum estado ou cidade algumas dessas mortes sejam contabilizadas como ocasionadas pela covid-19, pela semelhança de sintomas, haverá uma forma simples e bastante crível de inflar os números da pandemia.

Além disso, há diversos indícios e denúncias de que está se adotando a prática de contabilizar mortes por coronavírus mas de pessoas que não morreram por causa do vírus. Por exemplo, se há um óbito ocasionado por infarto, mas a pessoa é testada positiva, mesmo que o vírus não tenha afetado sua saúde, a morte entra na estatística da covid-19, o que não faz nenhum sentido em termos de metodologia, medicina e de lógica.

Isso aumenta significativamente a contabilização de mortes por corona, desprezando a existência previa de comorbidades. A imprensa também tem noticiado que o mesmo ocorreu em países como Itália, e agora, estão revendo os números de mortes.

Ao final, se as quantidades de morte estão infladas, qual poderia ser uma estimativa mais correta? Utilizando a mortalidade encontrada em Minas de 1,1 por 100 mil habitantes, que é semelhante a encontrada nas regiões Sul e Centro Oeste, teríamos para o Brasil um total de cerca de 2.200 mortes, ou seja, menos de 10 vezes o que está sendo reportado.

Por mais absurdo que isso possa parecer, isso concorda com um dado recente do Instituto Nacional de Saúde da Itália que reportou que somente 12% das mortes contabilizadas como de coronavírus foram de fato causadas pelo coronavírus. As demais, 88% das mortes, foram causadas por outros fatores, como câncer ou problemas no coração, sendo que o falecido poderia ter a covid-19, mas não foi o vírus a causa da morte. Continuaria sendo uma tragédia, mas de uma proporção bem menor.

A triste conclusão é que, mais uma vez, os interesses políticos estão gerando um problema muito maior do que o deveríamos ter.

 

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio