Opinião

A política do Exército


Por tudo que nos acontece nesse momento difícil, no interesse do País e de todos os brasileiros, a política do Exército deve ser de acabar com a política no Exército


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 14 de Março de 2018 às 19:46

  | Historiador


No Brasil de hoje, é infindável a capacidade de criar problemas a título de solucionar outros.

Em meio a tantos que já temos, acresce-se agora o de apontar problemas onde não há, ou pelo menos, onde eles são infinitamente menores do que a crise moral, política e econômica que assola o País, e que se deseja, a todo custo, varrer para debaixo do tapete.

A título de desqualificar uma candidatura presidencial ao pleito de outubro, mais uma vez os militares foram transformados em problema.

Por que pretendem “construir projeto intervencionista” (Marco Antônio Villa, “O tenentismo quer voltar”, O Globo, 13/3/2018) ou por que pediram um “salvo-conduto para repetir nas favelas cariocas crimes cometidos durante a repressão” (Questões da República, “Mal-estar na caserna”, Revista Piauí, março 2018).

Como dizia o Barão de Itararé, de onde menos se espera é que não vem nada mesmo.

É inútil esperar que historiadores e a grande imprensa contribuam para uma interpretação equilibrada de nossa História, particularmente sobre os acontecimentos ligados à segurança e defesa nacionais, sejam eles militares ou diplomáticos.

Preferiram, ao longo de décadas, assumir a versão argentina das Guerras no Prata e, mais recentemente, endossar, estupida e acriticamente, o revisionismo marxista da Guerra do Paraguai, que hoje não serve para nada, mas cumpriu seu papel de deixar um buraco negro sobre o passado do Brasil.

Não satisfeitos, dedicaram-se à reconstrução ideológica do papel das forças armadas no País, confundindo história política com história militar.

Mas agora, sabe-se lá por que motivos, parece que  os limites do FEBEAPÁ (festival de besteiras que assola o país, cunhado por Stanislaw Ponte Preta) foram ultrapassados em um ataque gratuito às forças armadas no qual se misturam desconhecimento e, porventura, má fé.

Ao contrário do que o historiador Marco Antônio Villa afirma, os militares no Império tinham papel político, um aspecto indesejável da vida nacional naquele tempo que arrastou para a arena partidária questões militares, causando perdas de vidas, prejuízos e arranhões ao interesse nacional, como aconteceu na denominada Guerra da Cisplatina (1825-1828) e na Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870). Não fossem estadistas como D. Pedro I, D. Pedro II e mesmo Getúlio Vargas na Segunda Guerra Mundial, a política da paróquia teria imposto graves revezes ao Brasil.

Outra bobagem é a interpretação reducionista do 15 de novembro. Atribuir a queda do Império a um golpe militar é culpar a bala pelo ferimento que ela causou.

Essa lógica simplista desconsidera as grandes questões que levaram ao colapso do Império: a religiosa, a militar, a dinástica e a da escravatura. E lança o ônus da proclamação da República unicamente sobre os militares, para que os bônus sejam desfrutados exclusivamente pela classe política, até hoje.

No que diz respeito à questão militar, é primordial recordar que ela explodiu quando, em 1885, o Coronel Ernesto Cunha Mattos foi punido por responder na imprensa ao violento ataque proferido na tribuna da Câmara por um deputado mentor do capitão afastado do comando de uma unidade militar devido a  irregularidades verificadas pelo Coronel durante inspeção.

Falar em papel moderador das forças armadas na República é outra demonstração de desconhecimento, ou de fingimento, sobre a natureza corrupta do regime da República Velha (1889-1930).

No final do mandato de Rodrigues Alves (1902-1906), as oligarquias agrárias estaduais haviam restaurado seu controle sobre o sistema político.

As forças armadas estava depauperadas e o poder político pouco se importava  com isso, ao contrário, queria-as irrelevantes sob todos os aspectos. A partir daí, elas foram transformadas em meros joguetes da classe política.

Também está equivocada a relação que Villa estabeleceu entre salvacionismo e tenentismo.

Não foi um salvacionismo tenentista que levou às revoltas de 1922, 1924 e à Coluna Prestes. Foi exatamente o contrário.

O tenentismo reagiu ao movimento salvacionista, que foi o envolvimento do Exército na política da República Velha em vários estados do Norte e Nordeste e que culminou vergonhosamente na restauração do controle oligárquico no Ceará em 1914.

Os tenentes se levantaram contra isso em 1922. Contra a corrupção da República Velha e contra o emprego do Exército como mero instrumento da manutenção da ordem desse regime. Um apoio pelo qual o Exército pagaria muito caro em 1930.

Desse curto apanhado histórico, verifica-se que uma das questões centrais da imaturidade institucional do Brasil é a intromissão dos políticos nas questões militares, insistindo em usar as forças armadas como meios de poder e não como instrumentos de Estado.

As análises do passado recente do País revelam um desconhecimento quase absoluto sobre o que se passa nas forças armadas brasileiras.

Foi o regime da 5a  República (1964-1985) que afastou os militares da política partidária. No final dos anos 90, ingenuamente, eles acreditaram que a República estava consolidada e que, depois de décadas, as forças armadas podiam se dedicar totalmente ao preparo para o cumprimento de suas missões constitucionais.

Ledo engano.

Em pouco tempo, os militares assistiram ao aparelhamento do Ministério da Defesa e à invenção de uma Estratégia Nacional de Defesa eivada de marxismo e em desacordo com a Política Nacional de Defesa, tutelados por chefes escolhidos pelo poder político para viabilizar o projeto de poder que levou o Brasil à pior crise de sua história.  

Onde estavam então os profícuos e prolíficos historiadores, jornalistas e analistas?

Hoje temos o Exército teleguiado pelo PSDB, manipulado pelo MDB e sob um Ministro da Defesa que tece loas a um político do PCdoB. É a política no Exército.

A História não se repete, mas deixa lições.

Depois da Revolução de 30, lutando para reerguer o Exército face às ameaças que carregavam os horizontes mundial e regional, um dos mais jovens generais que o Brasil já teve, Pedro Aurélio de Góis Monteiro, o Chefe do Estado-Maior do Exército, proferiu a frase que atravessaria décadas sem ser compreendida em sua correta acepção e inteira grandeza:

“É tempo de se acabar com a política no Exército para termos uma política do Exército”.    

Não há como acreditar que algo possa ser bom para o Exército que não seja bom para o País. Se assim fosse, ele não seria uma instituição nacional.

Por tudo que nos acontece nesse momento difícil, no interesse do País e de todos os brasileiros, a política do Exército deve ser de acabar com a política no Exército.


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