Opinião

A pátria dos canalhas


Uma república que se tome por digna desse nome não pode ser abalada por canalhas, sob pena deles a tomarem


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 17 de Junho de 2016 às 16:15

  | Historiador


Há assertivas sobre a vida das sociedades capazes de atravessarem séculos de História para caberem como uma luva em qualquer tempo ou geografia. Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) vaga qual alma penada neste Brasil, perguntando até quando continuarão a  abusar de nossa paciência.

O derradeiro refúgio dos canalhas apontado por Samuel Johnson (1709-1784) parece-nos desoladamente familiar nas palavras de uns que cambiam lealdades em nome de um patriotismo de oportunidade.

Nossa casa cívica, o Congresso Nacional, foi transformada em “covil de salteadores” (Mateus 21: 12-13) que carece de ter expulsos os que a transformaram em uma “casa de negócios” (João 2:15-16).

Em quantas dimensões se coloca a canalhice pátria? Na corrupção que contaminou quase todo o Estado? Na pusilanimidade dos que se dobraram a ela como instrumento de um projeto de poder tirânico que continua a nos rondar? 

Na perfídia dos que semeiam o tumulto para levar o País ao caos onde pretendem salvar-se e às suas ambições? Na insensibilidade à gravidade da situação política, social e econômica do Brasil? Por certo, nestas e em outras mais.

Mas há que não se confundir jamais a crença com a qualidade dos crentes. 

Já vão alguns anos desde que ouvi de um brasileiro trabalhando na América Central sua surpresa diante da admiração de um diplomata estrangeiro recém-chegado de Brasília com o patriotismo dos brasileiros. 

A visão daquele estrangeiro se chocava com a autoimagem comum a muitos brasileiros, imagem consagrada num descaso que aos poucos se transformou em cívico-masoquismo. 

Nada, absolutamente nada, que nos fosse afeto era bom, certo ou valia a pena. O esvaziamento da comemoração dos 500 anos do Descobrimento serviu bem para consumar um estado de espírito.

Muito do que sofremos hoje, ou até pouco tempo, desesperançados de uma saída para o País, provém dessa desconstrução da nacionalidade, deliberada ou por bagunça mesmo, tanto faz. 

Grave é o efeito generalizado que essa desconstrução produziu em toda a sociedade: a absoluta falta de qualquer compromisso com a lei, com a coisa pública, com a representação política e com o interesse nacional.

De cima a baixo, não importa a educação, renda ou posição social, com cada vez mais raras exceções.

O que o diplomata estrangeiro enxergou em sua passagem por Brasília foi uma camada mais profunda do inconsciente coletivo brasileiro que décadas de leniência e trabalho ideológico não haviam conseguido apagar: o sentimento de nacionalidade que a carência de educação e a fraqueza das instituições impediram de desabrochar em civismo.

Ao brasileiro – e reitere-se pouco importa o seu nível de educação ou classe social – foi negado o direito de conhecer e amar o Brasil. O futebol foi a última punhalada na alma nacional.

As manifestações que tomaram conta das ruas do Brasil a partir de 2015 e finalmente levaram ao impedimento da presidente da República e apoiam a devassa da corrupção que o seu governo institucionalizou clamaram por muitas coisas.

Mas elas foram a catarse coletiva de um patriotismo de cores, gritos, hinos e, acima de tudo, de civismo surpreendentemente autêntico e objetivo. 

Ainda há quem não consiga enxergar o centro de gravidade do processo que está mudando as coisas no País. 

Esses insistem em pensá-lo como ideológico, efêmero, domesticável, que se possa esgotar em manifestações, validar por  números ou tanger para seus currais de interesses.

Não porque não lhes falte conhecimento, poder ou recursos para entender, mas simplesmente por que estão unicamente a serviço de si próprios, sempre. 

Uma república que se tome por digna desse nome não pode ser abalada por canalhas, sob pena deles a tomarem.

Que se distingam então as coisas, causas e efeitos. 

Os canalhas não têm pátria, a sua pátria está em outras dimensões.

A nossa pátria está em nosso trabalho, nossa cultura, nossa família, nossa forma de vida e, acima de tudo, no orgulho genuíno e natural de fazer parte de uma comunidade de cidadãos de um país grande, potencialmente rico e livre como o Brasil. 

Definitivamente, a nossa pátria não é a deles. Muito menos deles.

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