Opinião

A pátria de chuteiras dependuradas


Se o futebol era a válvula de escape da política nojenta, de repente deixou de ser. O futebol da “pátria de chuteiras” pendurou as chuteiras e caiu no lodaçal da política


  Por Jorge Maranhão 11 de Junho de 2018 às 15:30

  | Mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


Cadê o torcedor brasileiro? Estou espantado! A esta altura, em outras copas mundiais, estávamos a organizar o furdunço.

Ruas pintadas de verde-amarelo, cordões de bandeirinhas esticadas de poste a poste. Roda de batuqueiros vestidos de camisas da seleção, o amarelo canarinho uniforme nacional.

Poderia explicar o fato pela desilusão geral vivida pelos cidadãos. Desemprego aos píncaros e os políticos candango e andando. Serviços públicos sucateados e os políticos se lixando.

Impostos escorchantes e os políticos gastando a rodo com seus privilégios imorais. A dívida pública explodindo e os políticos escarniando geral. As eleições chegando com o mesmo sistema eleitoral de sempre de obrigar o cidadão a votar no menos ruim.

Todavia a tragédia é pior ainda. Se o futebol era a válvula de escape da política nojenta, de repente deixou de ser. O futebol da “pátria de chuteiras” pendurou as chuteiras e caiu no lodaçal da política. Os cartolas indo em cana depois de pegos roubando tanto quanto os políticos.

É desilusão demais! Temos dado audiência de final de campeonato às transmissões do Supremo, decoramos os nomes dos onze ministros escalados, mas alguns entre eles insistem em catimbar a justiça. Gritamos por substituição e nada acontece. O Brasil está sem torcida e sem camisa! E a questão, na verdade, é mais embaixo.

O Brasil cansou de ser barroco. Cansou do drible pelo drible. Da “pura emoção” do locutor animador da arquibancada global. Não há futebol-arte que resista num cenário de tanta desolação.

O Brasil está de luto pela política ter sido assassinada pela barbárie do campeonato nacional da farsa de todos quererem enganar a todos durante todo o tempo.

Não o Brasil analfabeto funcional que vive preso no imaginário da farsa barroca sem saber. Mas o Brasil letrado, as verdadeiras elites que leem e acompanham o noticiário político dos jornais e televisões. E se manifestam nas redes sociais.

Se somos 20 perante 200 milhões, não importa. Importa é que temos consciência de que queremos mudar a cultura política e não sabemos como.

E não sabemos como por que não sabemos que ela já começou a mudar exatamente por que aprendemos a nos manifestar. Por que nunca nos levamos a sério e temos trocado paródia por pastiche, gato por lebre, razão por emoção, vida incondicional por condição de vida, justiça por justiça social, liberdade por licenciosidade, dever por direito, cidadania por vilania, moralidade por legalidade.

Trocado valores intangíveis, enfim, por conveniências de ocasião.

Se soubermos que estivemos cativos da visão de mundo barroca durante todos esses séculos, mudaremos a cultura política muito mais rápido. Porque em todas as sociedades humanas, o que faz mudar a cultura e os costumes é o imaginário social projetado na mídia por verdadeiras elites.

Das imagens riscadas nas paredes rochosas das cavernas neolíticas às imagens em movimento alucinante das telas de televisões e computadores. Se cinco milhões de nós já foram às grandes manifestações de ruas, quatro vezes mais preferiram protestar nas redes sociais.

Se os velhos políticos não nos representam, os que frequentam as investigações da PF e o noticiário criminal, os novos estão a pipocar em todo o país. Estamos a mudá-los porque nos cansamos de ser enganados por todos eles durante todo o tempo. Cansamos de farsas, pantomimas, paradoxos e exageros.

O barroco era só artes no século XVII e XVIII, sermões, sonetos, pinturas e esculturas sacras e as volutas das arquiteturas das igrejas de Minas. Mas foi arrebatando de tal sorte nosso imaginário, que dominou nossos costumes, valores morais, a política e a justiça, na ausência de uma Renascença e sem nenhuma resistência cultural de uma mínima razoabilidade sequer de nossas elites.

A cabeça que rolou do corpo de Tiradentes foi na verdade a ideia germinal do iluminismo. Enquanto o coração de D. Pedro I jaz intacto até hoje na igreja da Lapa, no Porto.

Conservamos as emoções do barroquismo em nossas almas até mesmo quando fomos árcades, românticos e modernos! Se hoje posso identificar a exuberância das narrativas barrocas sobre nossa abundância de recursos naturais, posso identificar a resistência cultural ao Iluminismo, uma vez que nos descobriram, já passada a Renascença clássica, em pleno vigor do Barroco europeu.

E na luta entre as duas culturas, nos coube a prevalência renitente do barroquismo diante de nossa rarefeita razão, nosso incipiente bom senso.

E tudo isto está em jogo neste simbólico luto pelo futebol. Nesta que pode ser uma aproximação inescapável do fim do barroquismo e chegada, enfim, do iluminismo entre nós, brasileiros fartos de desmesuras, sedentos de razão.

Embora eu mesmo ainda prefira escrever, à correta frase da “pátria de chuteiras penduradas”, a deliciosa redondilha maior da “pátria de chuteiras dependuradas”.

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